Antítese

Apesar de ser uma banda pobre, no que diz respeito ao pouco refinamento musical, a Legião Urbana embalou uma geração por conta das letras de Renato Russo, falecido em 1996. Hoje, o acervo da banda é administrado pelo filho do vocalista, que falou ao portal do jornal O Estado de S.Paulo sobre o desafio. Acompanhem.

Filho de Renato Russo assume legado da já lendária banda Legião Urbana
Giuliano Manfredini, que completou 23 anos em março, passou a gerir o acervo no lugar da sua avó, mãe do cantor

Jotabê Medeiros – O Estado de S. Paulo

Cabeça dura, teimoso, empreendedor, excelente para começar projetos, para colocar fogo nas ideias. O produtor Giuliano Manfredini enumera assim as características do seu signo, Áries, o mesmo do seu pai, Renato Manfredini, o Renato Russo. O pai de Giuliano morreu quando este tinha 7 anos, e ele, que completou 23 anos em março, acaba de assumir o que chama de “espólio intelectual” do seu velho (até então, era a mãe do cantor, avó de Giuliano, que geria tudo).

Não é pouca responsabilidade: foram cerca de 25 milhões de discos vendidos em 14 anos de atividade, números de megagrupos como Oasis ou The Cure. A Legião Urbana foi (e continua sendo) um dos maiores fenômenos da música na América Latina. Manfredini já assume com o desafio de coordenar a celebração dos 30 anos da banda, que começa neste final de ano com a estreia do longa-metragem Faroeste Caboclo, com Isis Valverde, a Suélen, no papel da Maria Lúcia da canção.

Giuliano chama a atenção por ser quase uma antítese do pai. Nunca responde uma pergunta de bate-pronto, sempre inicia com uma palavra que, não raro, substitui por outra que considera mais adequada. É superponderado. Renato Russo era uma metralhadora verbal (há episódios em que xingou críticos de “bichas mal-amadas”), atacava detratores ferozmente. Algumas vezes, quando o tema é mais controverso, Giuliano pede delicadamente: “Me preserve disso, tá bom?” Não deixa nem o interlocutor terminar a pergunta para assegurar que não vai respondê-la.

“Não sou careta, mas não bebo. Sou tranquilo. Sou espírita kardecista, e o que mais gosto de fazer é ir ao cinema e ler. Também adoro comer o melhor da baixa culinária”, diz rindo o produtor, num perfil relâmpago de si mesmo. Não namora atualmente, diz. Aos 21, namorava Anna Cecília, mas acabou. “É tudo fortuito. Ainda não achei a pessoa certa, vai demorar um pouco. Até porque estou assumindo a Legião, tô muito focado.”

Ele diz que seu comportamento low profile também é parte de sua responsabilidade como condutor do legado da banda. “Os papéis se invertem. Ele era um criador, um artista, e eu tenho outra função: cuidar, preservar, difundir”, explica o rapaz, que vive em Brasília, mas procura apartamento em São Paulo – acredita que na capital paulista as condições são mais adequadas para desempenhar melhor sua função.

Giuliano está trabalhando em uma infinidade de projetos relacionados à Legião. Em maio, ele se mostrou contrariado com a iniciativa dos outros dois remanescentes da banda, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, de reunirem a banda em torno do ator Wagner Moura para um show da MTV, em São Paulo. Ele é atualmente o dono de 100% da marca Legião Urbana, e ninguém pode realizar nada relacionado ao seu legado sem pedir autorização a Giuliano. Na época, ele disse: “Nenhuma obra em conjunto pode ser decidida unilateralmente”.

O produtor estuda modelos para criar o Instituto Renato Russo, uma instituição que será voltada para ações de apoio e conscientização de dependentes de drogas. Ele diz que a própria agonia final do pai, que foi alcoólatra e usava drogas, o motivou a criar o instituto. Às vezes, quando estava em Brasília, Renato abusava de alguma substância e ia dormir em casa de amigos, para que o filho não visse o seu estado.

Outro fato que o motivou a criar o Instituto Renato Russo foi a revelação, pela TV, de que o antigo baixista da banda, Renato Rocha, o Negrete, estava vivendo como sem-teto no Rio de Janeiro. “Meu pai adorava o Negrete. Eram muito amigos, e ele não deixaria que ele terminasse assim. Eu vou fazer o que meu pai faria, vou tentar ajudá-lo”, disse.

“A Legião Urbana é uma empresa, e foi criada por meu pai. Temos advogados, estrutura de comunicação, marketing, planejamento. Mas a maneira que eu lido com isso tudo é mais terna, mais familiar. Não gosto de gritar ordens. Acredito que a forma como se relaciona com as pessoas muda até a qualidade do trabalho”, afirma Manfredini, que também é dono da produtora Mundano.

Giuliano não gosta de falar da parte materna de sua família. Sabe-se que sua mãe, Raphaela Manoel Bueno, era uma moça de origem humilde da Ilha do Governador. Giuliano foi adotado por Renato Russo e criado pela avó materna, Maria do Carmo, a Carminha. Em 2004, houve um processo judicial movido pela família da mãe, mas os pais de Renato Russo ganharam na Justiça o direito de manter a guarda do garoto até sua maioridade. Renato vivia no Rio de Janeiro, mas Giuliano conta que o pai nunca o deixou largado.

“Vinha sempre me visitar, escondido. Me protegia do assédio, passeávamos. Ele me fazia ver filmes repetidamente, e me ensinava a ler livros. Lembro muito dos Natais em família, a gente ia para o apartamento dele no Rio, eu era muito amado. Vim muito novo para Brasília, mas ele dava o norte de como eu deveria ser criado”, conta. O resultado é quase um anti-Renato Russo. “Quero casar, ter família, sou desse tipo de cara.” No início, Giuliano até que teve pretensões artísticas. Tocou guitarra numa banda de rock chamada Síndrome, mas logo jogou a toalha nas pretensões de ser artista e passou para o outro lado do balcão. Está no sétimo semestre de Direito e também termina o curso de Administração.

Renato Russo teve dois grandes amores em sua vida, lembra Giuliano. “Um menino e uma menina”, brinca, lembrando da letra do pai. O primeiro foi a nipo-brasileira Suzy, um namoro de juventude. “Meu pai me apresentou a ela, é um doce de pessoa. Está casada, vive em Brasília.” Depois, namorou o americano Robert Scott Hickmon, que conheceu em Nova York (e vive atualmente em São Francisco).

Toda a história de Renato Russo está agora nas mãos de Giuliano. “Meu pai deixou um universo a ser descoberto. E eu vou organizar isso. Cada um que o descreve mostra apenas um lado. Mas não há uma verdade única”, pondera.

Anderson Passos

Tom no cinema

Ainda não fui ver o filme do Nelson Pereira dos Santos e da Dora Jobim sobre o estelar Tom Jobim – o título é A Música Segundo Tom Jobim – mas não passa dessa semana, faça chuva, faça sol, caia o mundo.

Mas lendo algo sobre o filme na internet, nada me tocou mais do que a reflexão do Arnaldo Jabor sobre a película que revela em tons a vida do músico que hoje, ao lado de São Paulo, completaria 85 anos.

Eis abaixo o sambinha do grande cronista de O Estado de S.Paulo e cineasta.

A música segundo Tom Jobim

Arnaldo Jabor – O Estado de S.Paulo
Fui ver o ótimo filme do Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim e me lembrei da frase do Nelson Rodrigues: “Nada mais antigo que o passado recente”. Perfeito; dá para ver a espantosa mudança da vida social e cultural dos últimos 20 anos. As canções, as plateias, os olhos e ouvidos ligados nos shows, o desejo de transmitir a beleza de uma reflexão sobre nossas emoções, um ritmo de vida celebrando a inocência e a delicadeza, o tema do amor sempre presente, a qualidade das letras e sonoridade (Águas de Março é um grande poema sobre o devir), em suma, tudo que não é manipulação, barulheira fácil e boçal, nessa proliferação de irrelevâncias que pululam nas redes. Tudo bem, pode ser que estejamos no caos inicial, na infância de um novo e rico tempo cultural, como preveem os garimpeiros de ouro na bosta, mas, por enquanto, acho tudo um lixo.

O filme é a emocionante montagem de grandes momentos de nossa música como um discurso sem palavras. Saí do cinema como de um spa mental, no meio da poluição sonora e visual de São Paulo. Um filme terapêutico.

O documentário de Nelson e Dora me tocou muito. Sempre preferi ver fotos amareladas, filmes precários, antigos, que nos dão a sensação de nebulosas vidas mortas. As personagens do preto e branco, do trêmulo filme mudo, nos consolam com sua vetustez. Suas mortes são mais suportáveis porque pensamos: “Ah… naquele tempo se morria; hoje não”. No filme moderno, o passado recente, em cores, nos mobiliza porque vira um presente implacável, embora impalpável. Vemos a alegria de festas sem som, sorrisos mudos, a juventude perdida dos rostos, as gargalhadas que não ecoam em lugar nenhum, as mulheres tão moças e lindas (e não nos dávamos conta disso) e nós mesmos, nossa saúde, nossos humores, tudo visível. Também vemos os indícios de erros que nos levarão ao fim – o corpo maltratado, a melancolia evitável, o riso amarelo, eu, você, nós todos no passado perdendo tempo, desvalorizando o que tínhamos. Mais emocionante que a tristeza de um passado é sua alegria perdida.

Lembrei-me que num dia feliz, sentado ao piano, Tom tocou para mim uma música nova – era Chansong, a obra-prima com a letra anglo-francesa: “I’ve never been in Paris for the summer, I never drank a scotch with this bouquet”. Fui das primeiras pessoas a ouvir a música – tenho esse orgulho. Sempre que a ouço, vejo-me com ele, curvado, cantando com voz arfante, como se contasse um segredo.

Henri Bergson, o filósofo, declarou, quando viu os filmes de Lumière: “O cinema é importante para vermos como se moviam os antigos”. Isso.

Sempre me emociono com esse milagre do cinema, em que as pessoas ressuscitam na tela e ficam ali, falando, como se nada tivesse acontecido. Isso me dói porque um dia serei também protagonista de um flashback de mim mesmo. Assusto-me se estou num bar e, de repente, minha saudosa comadre Nara Leão começa a cantar baixinho ali ao meu lado, como aliás canta no filme, nos lembrando de sua imensa importância.

Já sentira isso na obra-prima do Miguel Faria Jr., Vinicius, quando escrevi: “O tempo era outro, e me refiro a tempo como ritmo, timing. Movíamo-nos de outro modo, em paisagens claras, com perspectiva, distâncias nítidas, andávamos pela praia até o Leblon”.

O mundo estava em foco e não era esse sumidouro de hoje. Esses filmes mostram um passado que poderia ser nosso presente. Ipanema era uma ilha de felicidade num país injusto, foi um momento raro em que o desejo e o projeto se encontraram, na praia, no bar, nas ruas com amendoeiras, nos amores mais livres, na música e literatura, antes da massificação.

O tempo se acelerou brutalmente nos últimos dez anos. Os filósofos vivem berrando: “Não temos mais tempo, porque as coisas fetichizaram o tempo!”

A cada dia, os blackberries, os iPads, os iPhones aumentam de potência, e o tempo vai se comprimindo. Até onde? Esta correria seria ótima se fôssemos chegar a alguma coisa, a uma estação Finlândia, a um terminal qualquer; mas, aonde chegaremos? No início do século 20, louvamos a velocidade crescente, revolucionária na arte moderna, a beleza do futuro, mas agora está chegando a hora de buscarmos a lentidão, a paz, o silêncio, como fazem as comunidades de “slow movement”. Aliás, o filme nos lembra que ainda havia silêncio. Outro dia, me falou uma “pianista” de twitters e facebook: “Hoje não há mais tédio – temos telinhas o tempo todo diante dos olhos”. Talvez, mas, sem vazio não há pensamento.

Agora, não temos condição de criticar e controlar mais nada, nem pela poesia, paródia, nem por nada. As coisas estão in charge, no comando da vida. Que diria Tom sobre isso? Bem, em conversas, nas suas falas sobre a natureza e em seus gestos já dava para ver a melancolia disfarçada de ceticismo sábio, víamos que ele já sabia que a barra ia pesar ali em Ipanema e em toda parte.

Talvez ele dissesse: “Você sabe, não é Jabor, você que é um árabe, um beduíno sem deserto, você sabe que a música existe no tempo. Se acelerar muito, a música vai junto, mas, depois de certo ponto, a arte perde o fôlego… Nós estamos querendo acabar com o Tempo”.

Isso me remete a um filme antigo, cult, o Planeta Proibido, de Fred Wilcox, com George Sanders e Anne Francis, um planeta vazio onde todas as informações de um mundo morto estavam guardadas num imenso subterrâneo, uma gigantesca máquina, um super-Google. Toda a vida do planeta, tudo que se descobriu e construiu estava ali, arquivado para a eternidade. Só não havia mais vida em volta – a raça tecnológica dos Krells tinha sido extinta.

Mas Tom não ia prestar atenção neste papo cabeça. Ele gostava de ver o que era vivo ainda. Ele diria: “Deixa pra lá… Olha… lá no alto, os urubus caçadores estão dormindo na perna do vento…”

Anderson Passos

Abu genial

Prestes a completar 80 anos, o ator e diretor Antonio Abujamra concedeu rara entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo. Eu e meu amigo poeta Alessandro Varela já tivemos a oportunidade rara de igualmente entrevistá-lo. Espero que o poetinha tenha guardado a maravilha. Por agora, leiam e se deliciem com o verborrágico apresentador do Provocações, da TV Cultura. Ou não.

Você está com algum projeto novo, Abu?

Quer ver como você não sabe nada da vida de repórter?

Sei que você completou 11 anos de Provocações e que, além disso, levou seu monólogo A Voz do Provocador para os CEUs de São Paulo e até para o Nordeste.

Fiz 21 espetáculos pelos CEUs. Fui ovacionado. Sou o rei da periferia. É uma plateia que não tem a arrogância da Augusta nem da Paulista. Parou agora. Em 2012 pode ser que eu volte. É um público livre. São jovens de 15, 16 anos. Fazem o que querem. Ficam atentos, querem aprender.

Você tem esperança nessa juventude?

Não tenho esperança em nada. Odeio a esperança. A esperança já f… a América Latina e você vem me perguntar, aos 79 anos, se tenho esperança? Minha esperança é que você não viesse aqui hoje. Era a única (risos).

O que você está montando ou ensaiando?

Um ator, um diretor de teatro, tem sempre 200 coisas na cabeça. Não dá pra te dizer “estou fazendo isso”, porque amanhã eu mudo. Não paro. Quero montar Thomas Bernhard, que você nunca ouviu falar, porque a cultura brasileira é uma m… mesmo. É um dos maiores autores de teatro do mundo hoje, à altura de Brecht.

O que João Cabral de Melo Neto influenciou na sua vida?

É a pessoa mais importante na poesia brasileira. Estive na casa dele em Marselha por 28 dias. Aprendi mais poesia do que em 50 anos de universidade brasileira. É uma das pessoas que realmente impressionaram pela qualidade, pela beleza, pelo saber fazer, por ensinar a olhar, a escutar, que nunca tem nada bem terminado, terminar bem é uma arte muito difícil.

Quem (ou o que) te levou a fazer teatro?

Britar pedras é pior do que fazer teatro. Então, quis fazer teatro, porque é mais fácil pra mim, porque eu não sei britar pedras. Faz tanto tempo e você quer que eu me lembre disso! Foi desde bem jovem. Uma irmã me levava para assistir peças de teatro – inclusive me levou ao extinto Teatro Santana, para ver um grupo americano apresentando um musical inesquecível com um elenco totalmente negro. Então, eu só queria ler teatro, ver os espetáculos. Fui percebendo que eu tinha uma naturalidade acumpliciante, com jeito mesmo para dirigir e interpretar.

Você estudou com grandes mestres do teatro europeu. Que lembranças guarda dessa experiência?

Terminada a faculdade, consegui uma bolsa de estudos na Espanha; depois, em Paris. Fui ficando por três anos, vendo o que de melhor acontecia no Velho Mundo, sempre mostrando o esqueleto para você colocar a carne viva com desembaraço, experiência, descaramento. Fui conhecendo os melhores, incluindo Jean Vilar, Roger Planchon, indo ver o teatro de Bertolt Brecht em Berlim e todas as modernas experiências. Impossível esquecer.

Como conseguiu ser dono do Teatro Brasileiro de Comédia e, depois, perdê-lo?

Porque não tenho talento para administrar teatro, sou artista.

Que balanço você faz, depois de mais de cem espetáculos?

Tive mas de cem fracassos. E, pra mim, não tem a mínima importância. Para um artista, o fracasso e o sucesso são iguais. Os dois são impostores.

Você gosta mais do sucesso ou do fracasso?

Essa pergunta não é boa de se fazer. O que interessa é o meu trabalho. Não tenho mais cobranças, dirigi demais.

Que legado deixará?

Nenhum. Ando na rua, vejo o nome do fulano de tal na placa, me pergunto quem será. Eu vou morrer, vai ter tabuleta na tabacaria, vai cair a tabuleta, vai cair o dono da rua, vai cair tudo. Não quero deixar nada.

Mas você tem uma importância muito grande para o teatro.

A palavra importante não existe pra mim. Eu proíbo a palavra importante, eu proíbo a palavra humano, a barbárie tem o rosto humano, então eu não preciso usar, proíbo a expressão “eu acho”. O achismo é uma bobagem. Não sou o que vocês querem. Não sou de dar entrevistas do jeito que vocês querem. Eu não sei, fico irritado. Acho que é bobagem e eu quero que você sinta que é bobagem. Quero que você sofra, não eu.

Vou continuar mesmo assim. É fácil fazer teatro no Brasil?

Como é que eu vou saber? Nada é fácil ao fazer teatro. É preciso ter talento e, principalmente, vocação. Alguns se jogam acalorados, perdendo o domínio das emoções, a consciência dos efeitos. Isso não é interpretação. É preciso ter sempre por perto os livros de João Cabral, que ensinam como fazer um gesto com a mão suave e sentida, como o toureiro diante da fera.

O que guarda de bom da sua época de diretor?

Alguns bons segundos, quando dirigi Cacilda Becker, Glauce Rocha, Margarida Rey, Lilian Lemmertz, Irene Ravache.

O que pensa dos diretores da sua geração?

A minha geração é formada por Antunes Filho, Zé Celso Martinez Corrêa, Amir Haddad, os falecidos Augusto Boal, Ademar Guerra e o gigante Flávio Rangel. Temos uma cumplicidade sem palavras entre nós. Conseguida com muita luta contra todas as pressões – ditadura, economia. Ninguém fala mal de mim para Antunes, porque ele não deixa; e eu também não deixo que falem dele. Temos nossas contradições, mas resolvemos entre nós. E o Amir Haddad diz: “Percebeu, Abu, que ainda somos os melhores e os mais modernos do teatro brasileiro?”. Fico puto e grito: “Onde estão esses jovens para dizer que somos umas bostas, todos com quase 80 anos?” – a juventude tem de ter mais coragem em relação a nós, porque, se nos respeitarem muito, vou desprezá-los.

O que pensa dos mais novos que você, como Hamilton Vaz Pereira e Gerald Thomas?

São os que estão existindo. No Rio, João Fonseca (para quem Abujamra passou a direção artística dos Fodidos Privilegiados, em 2000) é o darling atual. Mas não podemos nos esquecer desse talento chamado Charles Möeller.

Por que passou de diretor a ator, Abu?

Porque fui um imbecil quando diretor. Diretor tem de ter regras, soluções, rigor. Tem de ser chato. Já o ator não. O palco é do ator. Eu quero ser ator, brilhar, ser pavão. Dirigi 43 anos, fui um imbecil. O negócio é ser ator.

Você fez novelas.

Tenho de fazer TV, cinema, teatro, pois os supermercados também cobram dos artistas. A preferência é sempre o teatro, que é a fornalha do ator. O resto é executar.

Como vê Ravengar hoje?

Foi um sucesso extravagante. Feito em 1989, até agora o Ravengar passeia pelas ruas. Não tem explicação.

O que acha do que se faz na TV hoje em dia?

A televisão deveria deixar de trazer só a estética da pobreza. Mas não é fácil. Adquirir um conceito não é fácil. Por isso, é triste ver tanta mediocridade no meio da televisão.

Melhor atriz?

Fernanda Montenegro é a maior atriz brasileira e descobriu um diretor maravilhoso, Felipe Hirsch.

E diretores de cinema?

Gosto de Bresson, de Truffaut, do Hitchcock e todos que fazem cinema. Adoro, porque acho que são uns babacas, todos eles. Levam cinco anos para fazer um filme, e eu fracasso em dez peças em cinco anos.

Tem gente que diz ter medo de ser entrevistado no Provocações.

Já entrevistei umas 500 pessoas, você não pode dizer que elas tinham medo de estar lá comigo. Elas saem apaixonadas. Ninguém sai triste e irritado comigo.

Já fez terapia?

Não, senhora.

Chora?

Só choro quando as pessoas choram. Se você chorar agora, eu choro (risos).

O homem por natureza é bom ou ruim?

É uma experiência que não deu certo. Talvez daqui a 10 mil anos dê.

A vida é uma causa perdida?

Sem dúvida. A vida, branca ou tinta, é pra vomitar.

A burrice é irremediável?

Irremediável. A felicidade é uma ideia velha, cada dia nascem mais pessoas burras.

Acha estúpido ou inútil o matrimônio?

Tenho dois filhos e dois netos que me ensinam coisas inesperadas e maravilhosas. E uma esposa, Cibélia, 50 anos de casados. O que dá certo dá certo, o que não dá, não dá.

Anderson Passos

Crônica de um monstro

Triste saber que o dono desse cão não sofreu lesões semelhantes

Essa história eu resgatei e dou o devido crédito do blog Conversa de Bicho, hospedado no portal do jornal O Estado de S.Paulo. Ocorre que numa bela tarde, em Piracicaba, a 170 quilômetros de São Paulo, o dono desse Rotweiller, de 7 anos, resolveu jogar o bicho na caçamba de sua pick up para um passeio até que “acidentalmente” o animal caiu do carro e foi arrastado por vários minutos.

Se considerada apenas a infração de trânsito, a falta já é grave haja vista a negligência no transporte do animal. Terrível, no entanto, é supor, a partir do relato de testemunhas, que o motorista em questão berrava que só ia parar o carro quando o animal finalmente estivesse morto.

Por um desses milagres inexplicáveis, o cachorro sobreviveu, está recebendo cuidados e, Oxalá, seja entregue a outro dono menos desgraçado e monstruoso.

Quanto ao seu dono – a essa altura ex-dono – o meu sonho era impingir-lhe sofrimento igual com a mãe dele assistindo de camarote o espetáculo. Uma lástima que absolutamente nada aconteça a esse monstro pois que, chamá-lo de animal ofende sobremaneira os animais.

A foto é de um perfil não identificado do Facebook, que testemunhou os maus tratos do motorista ao bicho.

Anderson Passos

Presidente Datena

Depois que o Datena deu uma volta no bispo eu voltei a virar seu fã mais do que incondicional. Abaixo, publico entrevista recentemente concedida por ele à Ana Carolina Rodrigues, do Estadão.

‘Olham na minha cara e já me associam com tragédia’

ANA CAROLINA RODRIGUES
Pai de cinco filhos, avô de três netos e casado há 34 anos com a famosa dona Matilde, José Luiz Datena, de 54 anos, está em uma fase mais tranquila. Datenão – como ele se refere a si mesmo – sai pouco e quer deixar, em breve, os programas policiais. Em uma hora de conversa, na sala de sua casa, em Tamboré (SP), ele mostrou que continua o mesmo em um aspecto: gosta de falar, e muito, sobre tudo e todos. Até sua conturbada saída da Record, menos de dois meses após deixar a Band, para onde retornou, entrou no bate-papo. Assunto que diz querer evitar.

A Record quer cobrar uma multa por sua saída. O que acha disso?

Eu acho que quem tem de pagar é a Record. Saí de lá porque os caras estavam me censurando. A emissora tem muito mais dinheiro que eu. Não estão construindo um templo de Salomão, que é maior que o estádio do Corinthians?

O que mudou na Record no tempo que ficou fora dela?

A Record quer ser a Globo e aí f… O bispo Gonçalves (Honorilton Gonçalves, vice-presidente do canal) agora fica em um lugar que você tem de apertar botão para entrar. Para conversar com o cara, tem de ser espião, ter curso na CIA. Na minha época, eu subia na sala dele toda hora. Eles podem virar a Globo, mas falta muito.

Você disse que quer apresentar o ‘Brasil Urgente’ por só mais um ano. E depois?

Acho que é muito. Gostaria de apresentar por menos tempo. Mas é importante para a grade da emissora. É quase uma utopia a Band me tirar do horário, mas vai chegar um ponto que não vai ter mais jeito.

Você já foi ameaçado?

Ameaçado, eu sou sempre, mas não ligo para ameaça. Quem quer matar não ameaça.

Que tipo de ameaça recebe?

Todo tipo. Carta que a polícia intercepta, telefonema. Há muito tempo, me ligaram e fizeram uma bem concreta. Sabiam o nome dos meus filhos e onde eu moro. Mas o problema não é esse. O problema do ‘Brasil Urgente’ é que eu acho que já cumpri minha função nele. Eu cansei de ser o arauto da injustiça social do País.

Você não teme ameaças. Mas tem medo do quê?

Eu tenho medo de tudo, inclusive das ameaças, mas não a ponto de me paralisar.

Você tem segurança particular?

Não, não tenho.

Nunca andou com um?

Andei por uma semana com um que a Band arrumou porque disseram que o PCC queria me matar.

Você é do tipo que sai à noite?

Não. Trabalho muito e tomo alguns remédios que me deixam desgastado (ele fez uma cirurgia no pâncreas para retirar um tumor benigno há cinco anos). Então, prefiro e gosto de voltar para casa. Quase não saio.

Consegue ir a supermercados, lugares triviais?

Na fase da dureza, adorava ir a supermercado. Hoje, não dá mais, primeiro pelo fato de trabalhar, segundo porque muita gente vem falar com você. E eu dou atenção. Acho falta de educação não atender.

O que as pessoas te falam?

Comentam sobre assuntos do programa, falam de denúncias. Aí não dá. Você vai pegar uma margarina e o cara vem e fala: ‘Olha, Datena’.

As abordagens são só amistosas?

Uma vez, em um restaurante, fui no banheiro, voltei e um cara me disse: ‘Você me deve uma’. Eu já medi o cara para dar uma cabeçada nele, sabia que não era coisa boa. Ele falou assim: ‘Eu sou o cara da chácara de onde escaparam os seis Rottweiler (que atacaram uma criança). Você disse que eu sou assassino. Eu não sou’. Respondi: ‘Você não é só um assassino, como é um canalha’. Empurrei o cara, aí separaram. Um pouco por isso prefiro não sair muito.

Por que você não sabe como reagir a algo assim?

Se o cara vier dar uma porrada, vou dar uma porrada também.

E como você se diverte?

Diversão, para mim, hoje em dia é ler, estar com minha mulher, com meus filhos. Chega um momento que você tem de desacelerar.

E você está nesse momento?

Acho que estou. Estou procurando fazer menos, curtir mais. Ser feliz não é ter posses. Precisei ganhar dinheiro para aprender. Por isso que estou cagando para a Record me cobrar multa. Admitamos que eles ganhem, se eles tomarem tudo o que eu tenho, e daí? Eu recomeço. Importante não é ter, é ser. Sou um cara legal. Não atrapalhei a vida de ninguém, a não ser de canalha, de corrupto.

Tem saudade da época em que era repórter esportivo?

Lógico. Foi a maior fase da minha carreira. Eu era tido como do bem. Hoje olham na minha cara e já me associam com tragédia. Por isso que metem o pau em mim.

Você já usou drogas?

Não, usei nada.

Nem experimentou?

Maconha. Usei uma vez e foi uma porcaria. Eu tinha 17 anos.

Você é contra a descriminalização da maconha?

Sou contra qualquer tipo de droga. Mesmo porque eu vivi isso na pele, com meu filho (Vicente, de 30 anos, foi viciado em crack durante a adolescência), mas não quero mais comentar sobre isso.

Como lida com as críticas?

Eu deixei de lidar com elas. Se falo de crime, sou sensacionalista. Se estou fazendo piada, dizem que é mau gosto. Sou um cara marcado.

Você disse que perdeu R$ 350 mil por mês ao deixar a Record. Seu salário é bem acima da média…

É. Deus sempre erra a meu favor.

Em que você gasta seu dinheiro?

Eu não gasto, eu compro coisas.

Como foi sua infância?

Foi pobre, não tinha mistura durante a semana. Mas foi legal.

Você é religioso?

Eu falo com Deus, mas não sou carola, de ficar indo à igreja.

O que mudou na sua vida depois de retirar o tumor no pâncreas?

Porra nenhuma. Tomo uns 12 comprimidos. Os médicos me salvaram, mas essa história de repensar a vida não existe. Eu tinha de fazer exames a cada seis meses e nunca mais fiz.

Mas por que não faz os exames?

Eu não tinha nada. Entrei em uma máquina e o cara descobriu um tumor no meu pâncreas. Vou procurar mais o quê? Mas espero que as pessoas não façam o que estou falando.

Você votou na Dilma?

Voto deixa para lá, mas estou achando ela do caralho. Nós precisamos ter uma presidente mulher para dar uma de macho. Nem o Lula, que foi um puta presidente, fez isso. É um começo legal, mas ainda acho pouco.

É casado há quanto tempo?

Há 34 anos, com dona Matilde. É meu primeiro e único casamento. Me separei dela e voltei. Nunca devia ter separado. Fiquei dois anos fora de casa e fiz dois filhos (com a jornalista Mirtes Wiermann). Hoje para levantar é uma dureza.

O sexo mudou com a idade?

Mudou. Eu tenho diabetes, então diria que hoje sou uma Minardi, mas já fui uma Ferrari.

Já usou Viagra?

Uso sempre. Peço pra Matilde comprar para mim. Eu tenho vergonha de pensarem: ‘Pô, esse cara não levanta mais o p…?’.

Anderson Passos

Texto espetacular

Em matéria de publicidade, o assunto do momento é comercial em que o músico Biafra – hoje Byafra – canta a sua Sonho de Ícaro, impedindo a tentativa de roubo de um carro.

Pois, a propósito desse comercial, Christian Carvalho Cruz, do Estadão, cometeu o texto primoroso que colo abaixo.

Voa, Byafra!

O cantor voltou às paradas depois de topar uma tiração de sarro de si mesmo. Mas o ‘Aliás’ adverte: você ficará com ele o dia inteiro

Christian Carvalho Cruz – O Estado de S. Paulo

A dureza de passar um tempinho com o Byafra é que o Byafra vai passar um tempão com você. Não por vontade dele. E muito menos pela sua. Mas será inescapável. Você vai ali buscar um cafezinho e o Byafra vai junto, em algum recôndito do seu cérebro: “Voar, voar/Subir, subir…” Está preso no engarrafamento tentando ouvir no rádio as novidades sobre a montanha-russa das bolsas, o Byafra não deixa: “Ir por onde for / Descer até / O céu cair…” Toma um banho, procura bobagens na TV, dorme, acorda, mais um cafezinho, pensa em algo agradável, a Scarlett Johansson, o último CD do Chico. Inútil. “Anjos de gáááás/Asas da ilusããão…” Então você apela. Se imagina nadando no Tietê, lembra da seleção do Mano, dos desmandos de Brasília. “E um sonho audaaaaaaaaz / Feito um balão…” Melhor desistir. Caiu no labirinto, amigo, abraça o Ícaro.

Divulgação
Chato? Se ele recusasse, Oswaldo Montenegro era o plano B
Vamos, pois, às talvez não tão necessárias apresentações. Pros que não ligam os versos ao poeta, o Byafra é o antigo Biafra, niteroiense, cantor e compositor romântico, visitador contumaz do Chacrinha, do Bolinha, do Raul Gil e do hit parede dos anos 80. Oito canções em novelas da Globo, 15 discos, 3 milhões de cópias vendidas – 800 mil só do LP Existe uma Ideia, de 1984, cuja primeira faixa do lado A era esta grudenta Sonho de Ícaro, da lavra de Pisca e Cláudio Rabello. Andava meio sumidão, fazendo shows pequenos em cidades menores ainda. A certa altura, achou por bem enfiar um “y” no nome de guerra para evitar que as eventuais buscas no Google lançassem os interessados lá pras bordas da Nigéria. Do trono do mela-cueca ao desterro do mass media, enfim. Até que…

Sábado, intervalo do Jornal Nacional. Comercial de seguro de carro da Bradesco Seguros. Na tela, um meliante arromba um automóvel e dá a partida. O Byafra aparece no banco de trás, microfone em punho, blazer com ombreiras, franjinha e sorrisinho travado de sempre: “Voar, voar / Subir, subir…” O ladrão parte com o carro, mas vai se desesperando com o insuportável “sistema antifurto”. Não aguenta mais. Finalmente, a pá de cal. O Byafra lasca um daqueles seus adoráveis falsetes: “Anjos de gáá-ááááááás…” O bandido larga o veículo no meio da rua, foge a pé e um locutor em off passa a régua: “Vai que o seu carro não vem com o Byafra cantando. Aí é melhor ter um Bradesco Seguro Auto. Afinal, vai que…”

Em dois dias, a procura pelo nome do anunciante na internet cresceu 23% nas contas da agência AlmapBBDO, que criou a peça. As palavras “Byafra”, “Bradesco Seguros” e “Vai que…” saltaram para a lista dos temas mais comentados do Twitter. E os pedidos de show do Byafra triplicaram, ou quase. “Nossa média eram três por mês. Já temos oito apresentações confirmadas para setembro”, informava um satisfeito Robson Williams, empresário do artista, na última quinta-feira. Ele trouxe o Byafra de Niterói para participar de dois programas de TV em São Paulo. O Vitrine, da TV Cultura, que vai ao ar na próxima terça, e o Ratinho, do SBT, ao vivo. Entre um e outro, encaixou meia dúzia de entrevistas por telefone, todas com o mesmo mote: o sucesso da autoironia a que o seu pupilo se permitiu no comercial.

“Eu achei o máximo, topei assim que li o roteiro”, explica o Byafra, enquanto um cabeleireiro do SBT lhe aplica uma escova com secador no ralo capacete tingido de castanho-médio. Educado, o cantor se desdobra nas atenções. “Eu uso um xampu que minha mulher traz da Argentina, está vendo como fica sedoso?”, ele interage com o coiffeur antes de retomar o fio da meada. “Não vi o comercial como sendo uma sacanagem comigo. O negócio é que o personagem do ladrão não gosta da minha música, prefere Sabotage, Racionais. Por isso ele sai correndo. Isso não me ofende. Eu canto para agradar a quem gosta da minha música, não tenho a pretensão de conquistar quem não gosta.”

O Ratinho vem combinar como será o programa. “Eu pergunto se você ficou chateado com o comercial e aí a gente começa o papo”, detalha. O compositor-humorista Juca Chaves, outro convidado da noite e ali por perto com seu alaúde, arrisca mais uma piada: “Ah, você diz que ficou chateado até chegar o cheque do cachê…” Silêncio. Protegido por cláusulas contratuais, esse é um tema que as partes não comentam. No mercado se afirma que o Byafra ganhou entre R$ 120 e R$ 150 mil. E os autores da música, R$ 100 mil cada um. Eles não confirmam.

Aos 53 anos, o Byafra dos bastidores de hoje é praticamente o mesmo dos holofotes de antanho. Talvez com a franja mais rala, com o rosto mais vincado ao redor dos olhos e com a cintura mais larga, mas o jeito meio desconfortável de sorrir e de (pouco) se mexer quando canta continuam iguais – assim como seus hits. Não existe Byafra sem Leão Ferido (“Tenho que ser bandido / Tenho que ser cruel”) ou Seu Nome (“Quando escuto a sua voz / Estremeço, me dá um nó”). Ele ficou 20 anos casado com a primeira mulher, está há dez com a segunda. Tem duas filhas, uma de 30 e outra de 13, e uma neta de 3 anos. Só sua mãe, dona Delva, lhe chama pelo nome: Maurício. Maurício Pinheiro Reis, o caçula de três irmãos. O apelido Biafra foram os amigos de infância que deram, nos tempos em que Mauricinho era tão magricela quanto aqueles africanos de Biafra que eles viam na TV lutando uma guerra de independência. Se encantou pela música quando ganhou da avó uma flauta doce, único instrumento que domina além das próprias cordas vocais. Recentemente, encarou um ano de cursinho pré-vestibular e agora faz duas faculdades simultaneamente: canto e educação artística. É um sujeito agradável, articulado, conhecedor de música barroca, renascentista e das baladas do Stevie Wonder. Tímido como um playmobil, tem enorme dificuldade de falar de si. Mas fala:

– A timidez é parceira antiga. Quantos e quantos bailes eu fui e não dancei com ninguém… Simplesmente não tirava as meninas para dançar porque tinha medo de receber um não… Então ficava sozinho, vendo a banda tocar. No Chacrinha, me apavorava quando ele pegava meu braço e me arrastava para a plateia, gritando: “Quem quer Byafra?! Olha o Byafra aí!” Eu achava que ia desmaiar de tanta vergonha.

– E um tímido desse calibre virou artista?

– É que não é sempre assim. Tem uma história engraçada. Quando minha filha mais velha era adolescente tinha aquilo de ir levá-la em festas e depois, tarde da noite, ir buscá-la. Mas ela demorava pra sair, eu morrendo de sono no carro, um porre. Um dia eu vesti minha pior camiseta e a calça de moletom mais esfarrapada para ir apanhá-la. Entrei direto na festa: “Então, filha, vamos pra casa?” Ela saiu rapidinho, mais envergonhada do que eu, e nunca mais me fez esperar.

– E você nem precisou cantar…

– Hahahaha.

– Já fez análise pra ver essa timidez?

– Fiz, mas não para timidez. Fiz quando tive duas paralisias faciais seguidas, causadas por golpes de ar. Eu achava que teria a terceira a qualquer momento e não conseguia fazer nada. A terapia resolveu.

– Como você se define politicamente?

– Meu pai, Wilson Reis, que já morreu, era do PCB. Jornalista, trabalhou com o Samuel Wainer na Diretrizes e na Última Hora. Foi preso pela ditadura, o que me causou uma gagueira danada, que depois passou. Lembro dele chegando em casa, barbudo e magro, depois de seis meses na cadeia.

– Nos anos 80 diziam que você fazia música alienada, no mínimo. E no máximo, música chata. Isso te magoava?

– De jeito nenhum. Eu sempre fui um cara prático. Fazia o que a gravadora queria: pop romântico com refrão fácil de cantar. Uma vez eles me pediram algo mais ousado e eu levei Nos Caminhos do Porto Argentino, uma letra política que dizia assim: “Quantos meninos no fundo do mar / Uma estrela cadente caiu do luar / ou foi um cometa que passou / ou um avião que mergulhou”. Mas eles queriam outro tipo de ousadia. Queriam que eu cantasse sem camisa, que eu virasse sex symbol. O plano não vingou, é claro.

Ele jura que nunca se cansou da Sonho de Ícaro, mesmo nos shows da baixa, quando convinha cantá-la umas cinco vezes, pro público não pedir o dinheiro do ingresso de volta. O letrista Cláudio Rabello também aprecia sua criação, embora ela não seja a mais rentável entre as suas mais de mil composições. Ele não sabe ao certo, mas as campeãs de arrecadação de direitos autorais talvez sejam Doce Mel, gravada pela Xuxa, e Caça e Caçador, do Fábio Jr. O Rabello, que largou a faculdade de medicina no sexto semestre pra viver de música e hoje conta 63 anos, lembra bem quando o parceiro Pisca apareceu com a fita contendo a melodia da Sonho de Ícaro, que ainda nem nome tinha. “Era só o Pisca ao piano fazendo lálá, lálá/lálá, lálá. Fiquei dias ouvindo aquilo, até que uma hora, durante o jantar, me veio o ‘Voar, voar/Subir, subir’. Peguei o bloco de notas e escrevi o restante num jorro só. Achei que jamais seria gravada, porque ficou com seis minutos e pouco, longa demais prum pop romântico, e não falava nada com nada. É metáfora do começo ao fim, metáfora sobre drogas, sobre a ditadura. É sobre liberdade, na verdade, uma viagem filosófica por esse bem universal inatingível que, na mitologia, fez o Ícaro se estrepar de tanto perseguir.”

Para o publicitário Marco Gianelli, vulgo Pernil, um dos pais da ideia, o sucesso do comercial se deve a um pacote e não apenas a uma música, sejamos sinceros, com alto poder de chateação. “Se fosse para ser só irritante eu preferia usar o Restart, que considero muito mais chato que o Byafra. Mas não era isso. Precisávamos de alguém carismático, bem-humorado e com um hit facilmente identificável.” Se o Byafra não topasse, o plano B do Pernil era o Oswaldo Montenegro com Lua e Flor. E o plano C, a Tetê Espíndola com Escrito nas Estrelas.” Os citados não gostaram de saber. “Isso no mínimo é falta de informação, porque eu não estou no ostracismo. Pelo contrário, estou no auge da carreira e justamente por isso não estou precisando de grana”, informou, por telefone, o Montenegro. “E eu não sou chato. Eu tenho uma música chamada O Chato. As pessoas confundem…” Tetê Espíndola mandou um e-mail de poucas palavras: “Não vi o comercial, não vou me manifestar. Cada um tem suas necessidades”.

Noves fora, a se lamentar só a dificuldade de inscrever a propaganda nos concursos internacionais. Obviamente faltará repertório aos jurados internacionais para analisar um Byafra e seu Sonho de Ícaro. Mas esses publicitários brasileiros são danados e os diretores João Dornelas e Pedro Pereira, que pilotaram as seis horas de gravação numa madrugada fria de São Paulo, têm a solução. Basta trocar o Byafra pelo saxofonista encaracolado Kenny G, já pensou? Uia! Melhor não pensar. Vai que…

Anderson Passos

O meu novo ídolo jornalístico

Transcrevo íntegra de matéria do Estadão que conta um pouco do cotidiano do José Luiz Datena, o meu mais novo ídolo jornalístico – sem ironias. No próximo post explico o porquê. Fiquemos por enquanto com a bela matéria do Christian Carvalho Cruz.

‘Ah, vai te catar!’
Nos bastidores com José Luiz Datena, o jornalista mais estressado (e um dos mais bem pagos) da televisão brasileira

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ

Tem gente que fala pelos cotovelos, com as paredes, com as mãos, fala a torto e a direito, como se tivesse engolido uma vitrola e até – já que estamos na frase dos clichês – tem gente que fala mais que a boca. O jornalista José Luiz Datena, de 53 anos, fala de todas essas maneiras. Mas ele é loquaz mesmo com a sobrancelha esquerda. Naturalmente mais arqueada do que a vizinha, quando ela sobe um pouco mais, e esse movimento é acompanhado de um esbugalhar de olhos, virgem santa… “Você veio aqui pra fazer perguntas ou pra me f…?”, foi como o Datena se dirigiu a mim na manhã de quinta-feira, num corredor da Rede Bandeirantes, em São Paulo. Antes disso, ele tinha me dado um “Bom dia, como é que tá, velho?”, seguido de um caloroso aperto de mão. E eu ainda não abrira a boca.

Faltavam dois minutos para as 10 da manhã e para o Datena entrar no ar pela Rádio Bandeirantes com o seu Manhã Bandeirantes, um programa de notícias que se estende até as 11h30, de segunda a sexta-feira. Bem barbeado, melhor ainda penteado, ele caminhava incrivelmente devagar, barrigão à frente. Trazia o seu 1,83 m de altura por 112 kg de largura a bordo de um jeans desbotado, mocassins pretos sem meias e óculos escuros do tipo aviador pendurados na gola da camisa azul. A bolsa marrom da Louis Vuitton que lhe caía do ombro parecia pesar uma tonelada, mas acho que era só um pouco de sono da parte dele.

Foi assim, meio se arrastando, que o Datena entrou no estúdio – e de repente se encheu de disposição quando sentou diante do microfone e viu o painel “on air” acender. Então ele virou o monitor do computador para a parede e leu num papel a única fala que não seria de improviso até o final do horário: “Bom dia. São 10 horas e hoje é quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011. Vinte e dois graus em São Paulo”. E aí ergueu a sobrancelha esquerda, ao vivo para seus 105 mil ouvintes por minuto: “Quem escreveu isso aqui?! Vinte e dois graus estava quando eu acordei, às 6h da manhã. Agora deve estar uns 25, 26”. A editora do programa explicou baixinho que era uma média, já que a temperatura varia de região para região da cidade. “Tô nem aí! Eu não faço média nem com a temperatura.”

Verdade. Passados só mais 15 minutos e o Datena já tinha, como ele costuma dizer, “descido o bambu” nos vereadores paulistanos que aumentaram o próprio salário, no senador José Sarney que chorou ao reassumir a presidência do Congresso Nacional, na Companhia de Engenharia de Tráfego que só multa e nunca ajuda em nada, no ministro Guido Mantega que não dá um aumento melhor pro salário mínimo, nos donos de empresas de ônibus deste País que põem esses ônibus detonados pra transportar a população, na Ponte Estaiada que liga o nada ao lugar nenhum e só está lá pra Globo usar como cenário e, por fim, nos políticos em geral que se tem algo capaz de acabar com o mundo são eles. Mas tinha também pedido que os torcedores corintianos, revoltados com mais uma eliminação da Libertadores, agissem como Gandhi, parassem com o quebra-quebra, porque a não violência é a forma mais eficiente de protesto.

“Velho, é isso o que eu gosto de fazer, onde eu gosto de estar. No rádio e no SP Acontece, o programa de esportes que eu faço na TV na hora do almoço. Nesses, eu tenho a oportunidade de conter a acidez que é natural em mim, usar o humor e falar de coisas leves.” o Datena me contaria mais tarde, no seu singelo camarim. É ali que ele almoça todos os dias, acompanhado apenas de uma imagem de Jesus Cristo e outra de Nossa Senhora Aparecida, alguns livros e duas combinações de terno e gravata que ele deve vestir para aparecer na frente das câmeras.

Enquanto fazia a primeira troca de roupa e involuntariamente exibia a palavra Cristo que mandou tatuar no antebraço, ele continuou, usando um tom de voz bem mais baixo do que aquele que a gente ouve na TV: “Não é legal ser o arauto das coisas ruins. Se eu pudesse, largava agora o Brasil Urgente”. Trata-se “só” da maior audiência da emissora, com média de 6,2 pontos, para o qual o Datena recentemente renovou seu contrato por mais cinco anos, ganhando, dizem, R$ 500 mil por mês. Trata-se da TV mundo-cão: duas horas e meia de assassinatos, roubos, tráficos, pedofilias, enchentes, agressões, desastres de trânsito e que tais. Trata-se de algo que o Datena diz não gostar. Nem tanto pelo conteúdo, “porque segurança pública e prestação de serviço são assuntos de primeira necessidade”. O que o derruba, ele jura, é a pressão pela audiência que ele mesmo se impõe e a mão pesada dos críticos, que o picham de reacionário pra baixo. “Logo eu que sempre fui um cara de esquerda, p…!”. E deixou de ser? “Velho, hoje estamos num hiato de ideologias. O capitalismo é essa porcaria que tá aí. E o comunismo ruiu por causa da incompetência dos que não tiveram saco de ler O Capital inteiro, porque é um livro chato pra c…, e não conseguiram avançar além da ditadura do proletariado. Enfim, uma m…”

O Brasil Urgente pesa tanto que o Datena não deixa ninguém ficar no estúdio, além dos três cameramen. “Isso aqui é vestiário do Felipão, velho. O bicho pega”, ele me disse antes de adentrar o recinto, na quinta-feira. Todos os dias, ao pisar ali, o Datena para nos bastidores ao pé de um altar pequenino com a imagem de Nossa Senhora Aparecida e reza de cabeça baixa. Ninguém sabe o que ele pede. Talvez peça para não ter um enfarte, porque a tensão é braba. Do lado de fora, apesar dos vidros grossos, é fácil ouvir os berros dele com a produção, que fica no outro lado do andar, numa cabine extremamente fria e cheia de monitores de TV.

No total, são cinco operadores, quatro produtores e dois diretores (sem contar os repórteres e editores, que somam 19). Na cabine, o mais tenso de todos parece ser o operador concentrado e quieto que chamam de Paletó. A ele cabe encontrar as imagens de arquivo que o Datena pede. E o Datena não tem muita paciência. “C…, cadê a matéria? No tempo da fita ficava tudo à mão. Agora com esse monte de computador aí e vocês não acham nada, c…”, ele brada, assim mesmo, c… duplicados. “Quem trabalha com o Datena sabe que é assim, ele cobra mesmo, reclama. Como já foi repórter, conhece bem o que se passa na rua, tem feeling e não perdoa coisa malfeita”, diz o diretor Simão Scholz. O Brasil Urgente começa com uma lista de reportagens previstas, numa ordem prevista, tudo nos conformes. Mas o Datena vai mudando tudo no calor da hora, de acordo com a oscilação da audiência (a dele, a da Record e a do SBT, as rivais com quem briga pelo segundo lugar no horário). “Separa aí a matéria da Aninha, aquela menina transplantada que eu entrevistei anos atrás.” “Quanto tempo mais tem isso aí? Corta, p…, vamos pro helicóptero como o comandante Hamilton.” “Alguém me consegue um criminalista pra rebater isso aí.” Às vezes, o vestiário do Felipão pode parecer o paraíso.

A casa adora, obviamente. Diz o Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Band e chefe do Datena: “Cobrando, criticando, denunciando, apontando desvios de todo tipo e defendendo a população, o Datena incomoda muita gente e faz isso com uma força verbal impressionante. É para incomodar mesmo. Ele é uma espécie de defensor do interesse público e isso significa fiscalizar o poder e os poderosos. Ninguém nunca ousou me ligar diretamente para pedir a cabeça dele. Mas as reclamações são inevitáveis”.

O Datena sofre processos por suposta ofensa a ateus, a homossexuais e aparece em segundo lugar no Ranking da Baixaria na TV feito pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Por outro lado, é o 12º brasileiro mais confiável, segundo pesquisa do Ibope de um ano atrás. Mais confiável que Ronaldo, José Serra, Hebe Camargo, Faustão, Paulo Coelho, Xuxa, Aécio, Dilma e por aí vai. Com tanto ame-o ou odeie-o, e também para encolher o seu eu interior briguento e valentão, um dia o Datena quis fazer análise. “O cara colocou uma cadeira vazia na minha frente e disse que aquilo era a minha mãe, que eu tinha que conversar com ela para ele assistir. Três meses depois ele me contou o óbvio: que eu não sou louco, apenas reajo de forma exacerbada em certas ocasiões. Mas hoje estou bem mais calmo, nem tenho condições clínicas de sair na mão com alguém”, diz, com certo pesar, o marido da d. Matilde, pai de cinco filhos, avô de três netos e filho de uma costureira e um porteiro de Ribeirão Preto.

Em 2006, o Datena passou por uma cirurgia de 12 horas para a retirada de um tumor no pâncreas. “Também me arrancaram o baço, desvirginaram todos os meus buracos com sondas e ainda me deixaram essa hérnia aqui”, ele aponta um calombo na barriga. “Já marquei sete vezes a cirurgia para resolver isso. Não apareci em nenhuma, morro de medo de hospital.” De tudo isso, resultou um Datena que “opera por instrumentos”, mais precisamente por 18 remédios diferentes que ele toma todos os dias, fora as injeções de insulina. “Até sexo, hoje, eu só faço dopado”, ele entrega, referindo-se ao Viagra. “E ainda querem que eu seja um cara equilibrado, contido. Ah, vai te catar!”, ele dispara, não necessariamente em mim, eu quero crer. A propósito, “vai te catar” é uma expressão que o Datena gosta de usar. E usar com vontade. Uma semana e meia atrás, quando ele rebateu uma crítica que o atacante Ronaldo fez ao jornalismo da Band, entre bobalhão, baleia, trouxa e outros elogios, furibundo, ele lascou 13 “vai te catar” em meio a uma chuva de perdigotos. “Ronaldo, vai te catar, velho!”

Na volta do almoço, em que garantiu ter pouco dinheiro no banco, preferindo investir tudo que ganha em imóveis (ele até me mostrou, no iPhone, fotos de sua mansão de sete dormitórios no Guarujá), Datena deixou uma generosa gorjeta ao taxista. “Toma aí, velho, por você ter me aguentado falando tanta besteira.” No caminho, ele tinha me dito que seu plano é ir morar em Goiânia, onde estão seus filhos e onde ele comprou uma emissora de rádio – e, quem sabe, apresentar um talk show. “Acabando meu contrato com a Band, não quero mais. Será o fim do Datena da grande televisão. Até outro dia eu não tinha p… nenhuma. Era um jornalista f… como tantos outros, morava numa casa em que eu e minha mulher precisávamos encostar o colchão na parede para ter uma sala de estar. Hoje eu ganho um salário que é um absurdo, mas não tenho condições físicas de aproveitá-lo. Posso comer no melhor restaurante do mundo e o meu sistema digestivo é insuficiente para isso. Chega.” Ele parecia estar sendo sincero.

E então, no meio da tarde, quando pisamos na Band novamente, uma mulher muito maquiada, puxando uma mala de rodinhas, saltou na frente do Datena: “Oi, eu sou de Goiânia, conhecida do seu filho”. Ele, simpático: “Ah tá. Todo mundo que conhece os dois fica surpreso, diz que não nos parecemos em nada um com o outro. Agora, eu só não sei se estão me elogiando ou me criticando”. Ela, sarcástica, indicou que acreditava na segunda opção: “Hahaha! O que você acha?” O Datena se despediu já de sobrancelha esquerda levantada. E na escadaria logo adiante, voltou-se pra mim: “Tá vendo, velho? Só porque eu grito na TV, faço programa policial, lido com violência todo dia, as pessoas se acham no direito de serem mal-educadas comigo. Acham que eu sou forte para aguentar esse tipo de ofensa. Ah, vai te catar!”

No próximo post conto duas tigradas geniais do Datenão.

Anderson Passos