Tutuaçú

Nos tempos de Fradique Coutinho (Vila Madalena), Camila Gaya e Paloma e cia limitada, tínhamos uma maravilhosa mascote, a Tutu.

Pois recentemente a Camila teve uma mudança frustrada – a casa que alugara viu o teto ceder à primeira chuva. Então ela foi morar com um colega de trabalho e Tutu foi importada para a praia, onde a mama da Gaya reside.

Eu tinha comigo que com uma casa e um pátio, a Tutu ficaria tal qual “pinto no lixo”. E na visita que me fez no sábado (1º), a Gaya relatou que a Tutu anda num humor do cão. Não se deixa banhar e vacinar e está infestada de pulgas.

Como a Paloma agora dirige um carro, um comboio vai resgatar a Tutui para a casa de uma amiga veterinária da Camila. Oremos que a nova casa devolva o humor da nossa Tootsie.

Anderson Passos

Visitas

Na última sexta (24/2) eu me banhava quando o celular tocou e, do outro lado da linha, “fantasmas” do passado apareceram: as vozes eram de Camila Gaya e da Paloma, as meninas com quem morei no começo da minha estada em São Paulo. E que de muito eu não via.

Antes disso, à tarde, Camila falara comigo pelo MSN e reclamou que eu a abandonara e fez até um trocadilho sem intenção com este blog ao dizer que vivíamos “cada um na sua ilha particular”. A seguir ela ficou off line e pensei que nunca mais a veria.

Volto ao telefonema. A dupla estava a poucos metros aqui de casa e me convidava para ir com elas à padaria Santa ifigênia, que frequento desde que me mudei para o centro.

Como o banho demorasse, elas tornaram a ligar e perguntavam se podiam vir aqui em casa. Respondi afirmativamente.

Trouxeram pães, salgados, refrigerantes, sorrisos, lembranças de histórias que vivemos e de pessoas que se foram. Ambas admiraram minha “organização”, fumaram pra cacete o tempo inteiro e me forçaram a ver o Big Brother com elas.

Paloma virou dançarina de N boates e fatura tão bem que comprou um carro. Camila deixou a Fradique Coutinho para morar numa casa na Cardeal Arcoverde, cujo teto está caindo e o proprietário pouco se importa.

A mobília da Camila segue na casa com teto de peneira enquanto a tadinha foi morar com um amigo ou colega na zona norte, prédio bem bonito afinal.

Como não poderia deixar de ser, elas sujaram louça pra cacildis. Foi a primeira vez desde que saí da Vila Madalena para viver só que lavei louça com um extremo ar de nostalgia de nossos dias felizes, porque é isso que tem que ficar.

Anderson Passos

Vizinhos incômodos

Nesta segunda-feira (21/2), a boate Love Story, que se intitula “a casa de todas as casas” em São Paulo, receberá produção e elenco do filme Bruna Surfistinha, com direito a Déborah Secco e tudo o mais para celebrar o lançamento da fita que, proximamente, desembarcará nos cinemas.

Embora vizinho muito próximo do lugar, nunca pus os pés lá. A nega Paloma, que morou comigo, contava “maravilhas”. Dizia das amigas, por exemplo, algumas delas prostitutas, que ficaram revoltadas com a nova norma da casa de acolher travestis em seus aposentos.

A imprensa dá conta de que a casa é frequentada por uma gama diversa de pessoas: adentrando lá, pode-se ver atores e atrizes globais, mauricinhos, um ou outro desgarrado da zona leste, uma verdadeira fauna.

Como moro perto da boate, e de uma trinca de outros puteiros abundantemente frequentados na região da Praça da República, tenho esses vizinhos como incômodos pois que, ao longo da semana, e sobretudo aos sábados, domingos e feriados, o dia raia mais cedo para este escriba, ainda que munido de protetores de ouvido.

Não, não é o sol adentrando a janela nem são os passarinhos ou galináceos a cantarolar. Ocorre que, diária e infelizmente, em torno de 4h, o público dessas casas começa a sair do ambiente festivo para ingressar no ambiente perigoso das rixas construídas dentro dos salões.

Já flagrei, e ainda estou por documentar em vídeo, a praça de guerra em que se torna a região nessas horas, quando grupos maiores e menores de homens resolvem acertar suas diferenças a tapas, socos, chutes e garrafadas. Também já ouvi tiros. As brigas também envolvem casais que se engalfinham depois de flertes fora de hora.

Fora o consumo mais do que desenfreado de drogas, que não respeita sequer a luz do dia. Tanto é assim que, uma vez, num final de semana, eu flagrei uma dupla consumindo cocaína logo após deixar uma boate vizinha. Eram apenas 11 da manhã.

Não sei se é lenda urbana, mas vários vizinhos já relataram que há uma liminar na Justiça favorável ao município para tirar o Love Story da região o que, para muitos, resolveria essa tensão noturna a que os moradores do centro são submetidos quase diuturnamente.

Eu acho que o furo é mais embaixo: uma presença mais efetiva da polícia poderia resolver o problema. Mas o diabo é que não há perspectiva para isso se alterar, seja qual for a alternativa.

No meu prédio, três apartamentos se esvaziaram com pessoas afugentadas pelo barulho. Eu ainda não sei como estou resistindo. quer dizer, até sei: a minha zeladora é quase uma mãe per me. E assim vou ficando.

Anderson Passos

Sabor de infância

Quando morava na Vila Madalena, a nega Paloma, uma cozinheira de mão cheia que morava comigo, me fez voltar à infância, louca ela que era por vitamina (ou batida) de abacate.

Toda vez que íamos ao supermercado juntos, a negona, chamando a atenção pelas roupas minúsculas e pelo cigarro sempre entre os dedos, eu pedia para ela escolher o abacate do dia.

Pois me mudei, perdi Paloma e as demais meninas com quem morava de vista, mas fiquei com a assombrosa nostalgia da vitamina de abacate, que mama me fazia comer na infância com muito açúcar.

Daí veio o final do ano, algum trocado sobrando e comprei um liquidificador, item essencial ao preparo das batidas.

Comprei o primeiro abacate no escuro, isso é, sem me informar sobre que critérios para a escolha deveria adotar. O resultado da inauguração do liquidificador foi desastroso: a fruta estava verde e o sabor ruim demais. Perda total.

Pois eis que no findi passado, antes de cozinhar o feijão maravilha, do post recente, fui ao mercado, peguei um abacate amaciado e fiz o batidão mais que perfeito.

Feijão e abacatão nunca mais serão exceção lá em casa.

Anderson Passos

X e Y (Final)

O senhor Y era, talvez, o mais fiel amigo da Camila. Dos que conheci, pelo menos, posso afirmar isso.

Era um negro alto e saudável que, o início, me despertou um sentimento ruim porque fazia um barulho tremendo logo à sua chegada e, depois que já estava calibrado, sua voz tomava o prédio inteiro. Dormir com o sujeito berrando na sala era impossível.

Mas você vai convivendo com as pessoas, passa a conhecê-las melhor e passa a respeitá-las quais sejam suas opções. Tenho aprendido isso, sobretudo em São Paulo.

Um dia o Senhor Y me confidenciou um pouco da sua história. Era noivo de uma mulher, mas conheceu um sujeito – um gaúcho de Cruz Alta – igualmente noivo, nas mesmas condições dele. Resumindo a história, o fato é que as noivas ficaram para trás e eles passaram a viver juntos. Fiquei atônito.

Com o passar do tempo, à chegada do sujeito aqui em casa, eu me juntava à Camila e ele na sala e ouvia suas histórias de escândalo.

Até que, em novembro de 2008, Camila me apareceu com uma namorada – a criatura mais ciumenta da galáxia – e, claro, o senhor Y e ela jamais se bicaram.

Veio dezembro e com ele uma briga entre nossa ex-colega de quarto Paloma e o senhor Y. Foi tão feio que eles jamais se falariam de novo. A seguir, pouco antes do Natal, recebemos um telefonema aqui em casa com a notícia súbita de que o senhor Y estava hospitalizado em estado gravíssimo, à beira da morte.

Assustei-me. Antes de ir para o trabalho Paloma e Camila foram vê-lo. Camila não teve coragem de subir. Paloma leu o prontuário e flagrou a maior das surpresas. Também o senhor Y tinha o vírus HIV.

Como tinha pele negra e, mesmo em dias de calor andava coberto por mangas compridas e golas altas, eu jamais podia adivinhar.

Na virada de 2008 para 2009, viajei para o Guarujá, mas pedi à Camila que me avisasse caso algo ocorresse. Ao retornar de viagem, fui recebido pela casa vazia e em absoluto silêncio. Acabei adormecendo sem nada saber. Até que no dia seguinte, entre lágrimas, as meninas me contaram que o senhor Y havia morrido.

Anderson Passos

Meio Zé do Caixão

Ouro dia, eu dizia da partida de Paloma. Além da paz e do sossego e do ar mais limpo dentro de casa, a saída dela de casa teve uma consequência mais drástica.

É que cabia a ela cuidar de minhas unhas e, já que me limito a cortá-las, o quadro atual é de um filme de horror: as dos pés já encravaram e doem para burro. Como o trabalho me exige ficar em pé a maior parte do tempo, chego em casa com os pés em pandarecos.

Quanto às mãos, o que temos é muita carne em torno das unhas e assombrosas camadas de cutículas. Mesmo eu, tigre que sou, começo a me sentir constrangido. Afinal, vira e mexe, participo de coletivas e, imagino, que as pessoas reparam. Para minimizar a minha neura, tento sublimar, mas está complicado.

Assim, penso em procurar uma especialista que dê jeito nessa situação. Mas calma, isso não é metrossexualismo. É só uma tentativa de parecer menos medonho.

Anderson Passos

A paz surpreendente

Se não lembram, outro dia disse aqui que Paloma foi mandada embora depois de ficar devendo uma grana preta para a Camila. Dinheiro aliás, impago até hoje.

Todos a adorávamos, mas colocar o nome do companheiro de quarto na Serasa é demais.

Havia também comportamentos indignos que ganharam ainda mais vulto, o que tornou a convivência insuportável. O quarto de Paloma virou uma verdadeira favela com lixo, roupas e restos de comida convivendo harmonicamente, se é que isso é possível. A cozinha nem se fala, já que a expurgada produzia torres de louça suja e ela ali ficava. E o mais bizarro é que, mesmo estando errada, vira e mexe Paloma se dizia vítima de um feroz ataque de “olho gordo”. E perdi a conta de quantas vezes tomei banho com os pés sendo espetados por partículas de sal grosso no box.

Mas o que quero dizer é que, depois que Paloma se foi, o apartamento ficou mais arejado. Sim, sem dúvida, há menos fumaça de cigarro no ar do que nossa vã filosofia pudesse supor.

Mas não é só isso. A namorada de Camila mudou da água para o vinho. Se antes ela tinha crises de ciúme hediondas, hoje é uma menina de uma doçura nova. Verdade que já incorporou aos seus hábitos o cigarro e a cebolinha ao paladar, mas isso é o de menos. É uma outra menina, lhes garanto.

Vale registro também os avanços profissionais que eu e a namorada da Camila tivemos desde que Paloma foi embora. Há pouco mais de uma semana estou trabalhando num jornal, com carteira assinada e tudo – o que é um sonho numa cidade como São Paulo na minha área – e ela foi promovida no trabalho. Promoção que se adiara ainda na época que Paloma morava conosco.

Enfim, tudo parece tão pacificado e calmo que até assusta.

Anderson Passos