Fusca azul

Tinha eu talvez seis, sete anos e ia sempre acompanhado do meu avô materno, Prony da Silva Passos, para a escola Coronel Aparício Borges, no bairro Partenon, em Porto Alegre.

Numa manhã, íamos para a escola como fazíamos diariamente. No entanto, nesse dia eu me afastei uns bons metros do meu avô que, vai saber, parecia gostar da ideia, já que aquilo era um sinal de independência minha. Quem sabe num futuro próximo ele poderia deixar a função.

No entanto, um fusca exatamente azul se aproximou de mim em plena Rua 12 de Outubro. Nele, minha professora – agora lembro que era meu primeiro ano na escola normal – acenava para que eu apanhasse carona. Acabei embarcando irresponsavelmente.

Naquela época, um tio meu, irmão de minha mãe, tinha um feérico fusca azul. Igual ao da professora.

Corta para a sala de aula. A mesma transcorre normalmente, quando meu irmão mais velho, Everson Passos, invade a sala. Missão: certificar-se de que eu realmente estava em aula e não fora raptado ou o que seja. Lembro dele me dizer que meu avô estava assustadíssimo. E não era para menos.

O tempo não me deixa lembrar se pedi desculpas ao meu avô por esse ato infantil impensado.

Conto essa história porque meu avô orgulhosamente exerceu funções de meu pai até meus 15 anos, Me deixa saudades ainda hoje. Ele partiu em 1987 e a dor lancinante me consome ainda hoje.

A ele, o meu tributo nesse Dia dos Pais.

Anderson Passos

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Aniversários

Hoje este blog completa seu quarto ano. Coincidência ou não, o meu voo solo – morar sozinho – chega igualmente ao seu quarto ano. Mais ainda, foi num distante maio de 2008 que encarei o desafio de deixar Porto Alegre e me aventurar pela Pauliceia.

A todos que ajudaram em todas essas empreitadas citadas acima, o meu agradecimento comovido.

Anderson Passos

Depressão

Outro dia adicionei uma amiga de Porto Alegre no Facebook isso porque uma outra amiga em comum escreveu lá que, Oxalá, ela estava conectada a essa rede social. Não citarei nomes, claro.

Bem, adicionada a pessoa, quase que de imediato ela postou uma foto onde segura um copo d’água enquanto um pastor batiza um outro sujeito. Me deprimi. Deprimido ainda estou porque sei lá, eu e ela fizemos tanta arte, bebedeiras, festas, risos, confidências e ver aquilo foi um choque.

Não dirigi palavra à minha amiga na rede social, como não tentei fazer contato com receio dela me dizer um “Jesus te ama” ou dizer que o “diabo está de posse da minha alma”.

Estou triste e desapontado com a cegueira alheia. Estou revoltado, de verdade. Estou de mãos amarradas e com voz surda pois que ela jamais me ouviria. Pena.

Anderson Passos

O fim da rádio dos loucos

Quando ainda morava em Porto Alegre, vez em quando eu me pegava ouvindo a Ipanema FM, chamada nos anos 80 e 90 em especial, como a “rádio dos loucos”.

A emissora fora fundada por Mauro Borba, que mais tarde fundou a 107,1, a Pop Rock vinculada à Ulbra, de Canoas, ali do ladinho da capital gaúcha. Além do seu Borba, a rádio revelou para os gaúchos nomes como Kátia Suman, Mari Mezzari, o Alemão Vitor Hugo e o Carlos Eugênio Lisboa, o Cagê.

No entanto, na última semana, o José Luiz Prévidi publicou em seu blog que a emissora seria vendida para o Grupo RBS, afiliado local da Rede Globo.Também pelo Prévidi fiquei alarmado ao ler que apenas o Vitor Hugo e outros três valentes funcionários tocavam a emissora. Com a Ipanema, vai embora um tempo que não volta mais. Uma lástima. RIP Ipanema FM.

Anderson Passos

O tigre de Alegrete

Tenho um tio distante que tem fazenda, algum dinheiro, família, tudo certinho. Ele deve ter perto de 70 anos e um belo dia minha mãe liga escandalizada.

– Arrumou uma amante de 17 anos.

Eu dei risada, claro. Nem o fato de minha tia acordar bebendo uma latinha de cerveja – das dezenas que ela consome ao longo do dia – me deixou chocado.

Bem, mas já falei da diferença de idade. E claro que meu tio alegretense tinha que cometer uma tigrada. Sim, ele tomou viagra para fazer uma bela performance para sua gatinha e eis que teve uma parada cardíaca.

Recentemente, todos correram a Porto Alegre a procura de um hospital que pudesse atendê-lo naquele estado urgente.

No hospital, mesmo acamado, o homem ouve da mulher.

– Da próxima vez toma uns 50 azulzinhos pra não dar despesa, filhodap*#$

Anderson Passos

Lembranças de tempo distante

Nesse minuto experimento um par de botas que meu irmão trouxe do sul, encomenda de minha mãe. Por conta da cor marrom e do formado do calçado, voltei no tempo.

O ano eu não posso lembrar qual era, mas fato é que estavam em voga em meados dos aos 80 as botas “Star Sax, o calçado da geração jeans”.

Acho que nem estudava naquele tempo, lembro melhor agora. Portanto, devia ter entre cinco e seis anos. E lembro que meu avô saudoso, Prony da Silva Passos, me levava ao centro de Porto Alegre para fazer seu serviço bancário e me propiciar longas caminhadas e diversão.

Num desses inesquecíveis passeios, meu avô foi buscar minha avô, que trabalhava no Arquivo Público do Estado e ambos me levaram a uma loja de calçados.

E, não sei bem de quem foi a escolha, mas fato é que experimentei um par de botas da Star Sax marrom, modelo similar ao que calço hoje. Diante do conforto, meus avós e entreolharam e me perguntaram:

– Gostou?

Devo ter emitido o sorriso mais eufórico do mundo. E, assim, ganhei meu primeiro “calçado da geração jeans” para inveja absoluta dos meus irmãos. A calça jeans, no entanto, levaria pelos menos dez anos adiante para eu ter.

Vasculhei o Youtube e nada do comercial. Mas a trilha do Kraftwerk era esta: The Hall of Mirrors.

Anderson Passos

Feira livre (1)

Sempre tive asco de feira livre. Isso porque, na minha infância distante e feliz, meu avô me levava para as feiras que ladearam por anos o mercado público de Porto Alegre. E eu, mais pequenino que os meus da minha idade, me perdia no meio daquele povo, ainda que não soltasse da mão do meu querido avô.

A pior parte era quando, depois de fazer seus serviços bancários, meu avô me levava então ao Mercado Público e aquele cheiro então horripilante das peixarias me deixava a beira de gorfar enquanto meu avô parava de bar em bar com uma Antarctica a deliciar-lhe a alma.

Anderson Passos