Profetas do caos

Acompanhei os protestos da quarta-feira (14) em São Paulo, em especial os que ocorreram na região central da cidade, e algumas preocupações significativas me colheram.

A primeira foi que entre os manifestantes surgiu uma turba de mascarados – a ampla maioria – e outra sem máscaras, mas devidamente entorpecidas, que burramente restringiram o trabalho da imprensa sob a justificativa de que a mídia é fascista.

Cumpre dizer que esse grupo sustenta bandeiras rubro negras anarquistas. Donde a pergunta que me assolou foi exatamente esta: se a mídia é fascista – e acho que a crítica cabe em algum momento à manipulação patrocinada pelos donos das empresas e não a quem está tentando trabalhar – o que serão estes elementos? Eu mesmo respondo: são intolerantes, vândalos, profetas do caos.

Outro ponto foi o emprego de balas de borracha contra manifestantes na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. A polícia nega o uso deste equipamento. O governo do estado silencia. E quem se machucou, bem, esses não importam.

Os novos protestos agora são direcionados ao governador Geraldo Alckmin. Além dessa minoria caótica, estão por trás da iniciativas partidos de oposição ao governo como PT, Psol e o nanico PCO. O objetivo inicial é instalar uma CPI na Assembleia Legislativa para investigar o caso Siemens. O outro, subliminar e não menos importante, é tirar o PSDB do Palácio dos Bandeirantes – sede do governo paulista. Ao silenciar, Alckmin acusa o golpe.

Anderson Passos

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O PSDB tem medo

O governo de São Paulo é tido pelos tucanos como uma de suas mais imponentes fortalezas ante o cada vez mais próximo predomínio do PT e de seus aliados pelo País. Tucanos não são necessariamente humildes – claro, há exceções – e na noite desta segunda-feira (28/01) testemunhei o apelo de um serrista ferrenho ao governo Geraldo Alckmin.

“Temos que defender o governo Geraldo Alckmin com todas as nossas forças”, disparou o senador Aloysio Nunes Ferreira (SP) lembrando que, no caso da polêmica internação compulsória de dependentes químicos, patrocinada pelo governo do estado, o PT e seus aliados têm disparados farpas dia após dia contra Alckmin.

Para este escriba, nada mais surpreendente do que um tucano de alto garbo admitir o perigo petista. Que roça a cadeira do governador com um desejo poucas vezes visto.

Anderson Passos

Ainda a violência – e alguma política

Outro dia um colunista da Folha de S.Paulo, Gilberto Dimenstein, abriu sua coluna com um título provocativo: “O governo Alckmin acabou”. No texto, ele se referia à onda de violência que assola São Paulo e advertia que, se providência nenhuma fosse tomada, o governo tucano sofreria um sério abalo.

Daí que lendo os comentários, o que havia de defensores do carismático governador de São Paulo não estava no gibi. Houve quem xingasse o colunista, até. E, sim, o chamaram de petista.

O fato é que os paulistanos têm verdadeiro horror de que sejam retomados, a partir dos presídios, os ataques do PCC verificados em 2006. Não é para tanto, aparentemente. Investigações preliminares indicam que a morte de policiais em curso têm ocorrido porque o PCC está trocando as dívidas dos seus filiados por cadáveres de policiais. Dívidas essas que, em alguns casos, chegam a R$ 10 mil. Não devia, mas ainda me surpreendo com a organização desses pestes.

Outro ponto, me parece, é que passados 20 anos do Massacre do Carandiru, que matou oficialmente 111 presos, a opinião pública conservadora da Pauliceia cobra uma reedição daqueles eventos sob o pretexto de calar o PCC definitivamente.

Geraldo Alckmin, como esperado, tem medido palavras e ações. Aceitou, inclusive, ajuda federal para tentar superar o problema. Verdade que dinheiro algum foi disponibilizado, se não ofertas para que os comandantes do PCC sejam transferidos para presídios federais, operação em andamento. Com esse gesto, o tucano abre um flanco para o PT no Palácio dos Bandeirantes – sede do governo estadual – e, se tudo der certo, poderá conferir aos petistas um certo crédito na disputa à sucessão de Alckmin em 2014. Alexandre Padilha, o ministro da Saúde que percorreu o estado nas últimas eleições municipais, poderá ser o nome novo do PT para a disputa.

O diabo é que até aqui vem dando errado para os dois lados – o tucano e o petista – vide a declaração de uma mãe à mesma Folha de S.Paulo, que perdeu um filho na onda de assassinatos, e que cobrou tanto da presidente Dilma Rousseff e do governador de São Paulo uma providência mais dura. E ela está mais do que certa.

Anderson Passos

Jingles eleitorais

Quando se fala em jingle eleitoral, o primeiro que vem à cabeça de muita gente é o Lula Lá, que embalou as campanhas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde a campanha de 1989.

Mas esse ano o PT se superou: trouxe um forró sensacional – musicalmente falando – onde a letra se resume ao número do partido nas urnas. Coisas do senhor João Santana, o marqueteiro palaciano.

Tó…

Do engajamento

Eu lembro de, numa época distante, ter sido estagiário simultaneamente na rádio FM da universidade onde estudei e de trabalhar como rádio-escuta no governo do estado do Rio Grande do Sul, gestão Olívio Dutra.

Para quem desconhece o jargão jornalístico, rádio-escuta é o peão da assessoria de imprensa que comunica que determinado apresentador, de determinada rede, está dando um malho e que um direito de resposta pode, eventualmente, inibir estragos à imagem, etc.

Mas eu dizia de engajamento e, mesmo naquela época o meu era zero, estritamente profissional. Tanto era que um colega da FM, sempre que me via chegar, sapecava:

– Chegou o vermelho.

Quando na verdade, outro colega em comum relatou, vermelho (era uma forma que usávamos para classificar petistas) era o meu próprio crítico que tinha ficha partidária, carteirinha, o escambau e, ao que leio por aí, ainda tem e usufrui consideravelmente dela.

Volto ainda aqueles tempos para acrescentar que tanto meu engajamento foi zero que Olívio não se reelegeu, assumiu Germano Rigotto (PMDB) e eu me mantive nas funções até o final do meu estágio e fui recomendado para atuar na Assembleia Legislativa. Tudo por méritos profissionais e não necessariamente por cores partidárias.

Eu dizia de engajamento e vou terminar. O meu último resquício dele, que ainda mantenho vivo, é o de jamais trabalhar para qualquer maldito pastor evangélico. A Record, por exemplo, paga mais? Pode até pagar, mas a grana me parece vir suada de gente humilde, descerebrada, que aposta todos os seus quinhões na roda viva das madrugadas de um Fala Que Eu te Escuto da vida. Donde, com orgulho, afirmo: que vão de retro, como eles mesmos gostam de dizer.

Agora encerro o texto: eu não lembrava de um último ato de engajamento meu até que ontem, lendo o blog do Juca Kfouri, me deparei com uma petição para trocar o nome do Engenhão, hoje creditado a João Havelange, para o jornalista João Saldanha.

Justificava o Juca que, dadas as denúncias de pagamento de propina pela Justiça da Suíça ao ex-dirigente maior da Fifa e da CBD, não havia sentido manter a homenagem a Havelange. No que estou amplamente de acordo. Ademais, fã de carteirinha do João Saldanha – herança do meu amado avô Prony da Silva Passos – e do próprio Juca, que sempre me acolheu amavelmente, fui lá e assinei a petição.

Pra chegar ao Blog do Juca, o caminho é este. Para assinar a petição para o Botafogo criar vergonha na cara e saudar um de seus mais ilustres torcedores, clique neste espaço.

Anderson Passos

Eleição paulistana modo aquecer

Ao contrário da eleição presidencial de 2010, a diretoria do jornal que me emprega disse-me assim sobre a eleição na pauliceia:

– Cobertura profissional e só.

Primeiro achei que me xingavam e, passado o momento de “auto-estima lá no cú do cachorro”, sapequei.

– Então não temos candidato, é isso?

Sim, confirmaram. Assim, está estabelecido um critério não muito rigoroso de cobertura por hora, qual seja: o candidato está perto da redação? Colamos nele e as agências que salvem a página.

A coisa ainda está engrenando e é cedo para fazer análises. Cobri recentemente eventos com Gabriel Chalita (PMDB), José Serra (PSDB) e ainda espero a oportunidade de cobrir o favorito de Lula, o ex-ministro Fernando Haddad (PT) e de outros, claro.

A dizer das propostas, muitas convergem: por exemplo: é preciso levar empresas e emprego para a periferia, evitando assim a migração diária de um Uruguai que vai e vem da zona sul e a da zona leste. Para isso, isenção fiscal e estamos conversados. Todos os candidatos apresentaram a mesma proposta nessa questão.

“O problema de São Paulo é tão óbvio que a convergência ou cópia de programas é livre”, ponderou Chalita a este repórter em pauta recente.

Ainda estou esperando diferenciais de cada candidato. Eu e os eleitores, espero. Vejamos quando a carruagem decola.

Anderson Passos

Pitada política

Por ser um tema com o qual trabalho diretamente no dia a dia, evito falar de política no Ilha de Concreto. No entanto, quando um ex-presidente da República como Fernando Henrique Cardoso vem à boca de cena dizer “esqueçam as classes C e D”, num recado ao tucanato e à oposição de um modo geral é de dar calafrios.

Felizmente, até lideranças do DEM classificaram a manifestação como infeliz e o próprio senador tucano Aécio Neves – verdade que ao estilo mineiro – disse que tinha esperanças de que esse afastamento não acontecesse.

Pelo sim pelo não é de se esperar, primeiro, que a íntegra das declarações de FHC, que serão conhecidas na revista Interesse Nacional, sejam melhor contextualizadas e explicadas.

Se realmente ele apregoar um dane-se aos pobres e ater suas ideias políticas aos chamados “novos ricos”, como a imprensa tem dado a entender, ninguém mais feliz do que Dilma Rousseff e o PT com mais esse tiro no pé ou facada nas costas dado pelo ex-presidente contra seus pares.

Anderson Passos