Refúgio e retorno (Final)

Nas proximidades da Universidade Mackenzie cruzei o último cordão de isolamento das tropas referidas no post anterior. A venda irregular de bebidas era escancarada, assim como o porte de garrafas pelos participantes seguia sem fiscalização ou controle.

Via-se casais homossexuais de todo o tipo e lembro de cruzar por um travesti que trajava apenas um microshort e fartos seios falsos à mostra. Não vi violência. A violência que se via era outra: bebia-se em demasia e a sarjeta estava igualmente apinhada.

Como a multidão começasse a se avolumar, dei uma volta e consegui evitá-la. Em dez minutos, adentrava meu prédio surpreso pelo deserto que era a minha rua, normalmente lotada de tipos em eventos como esse.

Ano que vem tem de novo. E lá me vou para fora da cidade.

Anderson Passos

Refúgio e retorno (2)

Andei alguns metros, aproximei-me da Estação Clínicas do metrô e esperei ainda por um estalo do meu sexto sentido para abandonar o plano de ir a pé. Sem estalo algum, retomei o plano inicial.

Chegando na esquina da Paulista com Consolação, percebi que minha intuição estava certa. Não havia como transpor a região de carro ou transporte coletivo. Donde me pus a andar.

Chegando nas proximidades do Cemitério da Consolação, deparei-me com uma verdadeira operação de guerra: viaturas da fiscalização de trânsito, caminhões de lixo, varredores, guarda civil, Polícia Militar. Verdadeiros exércitos.

Andando mais alguns minutos, transpus de todo a área frontal do cemitério e carros pipa lavavam as calçadas com jatos d’água possantes dos dois lados da via.

Então, lancei os olhos em direção ao Viaduto Costa e Silva – o famoso e sugestivo Minhocão – e o mar de gente e de luzes era assustador.

Anderson Passos

Refúgio e retorno (1)

Sabedor de que mais uma Parada Gay se aproximava, fui convidado na última sexta-feira (31/5) a ir passar o final de semana na casa da Marina Diana e do meu irmão Ferdinando em Cotia. E não esqueçamos do meu sobrinho Heitor e da mascote Rebecca, que senão sai gritaria e dentada.

Do findi em si, direi com o tempo. Porque quero relatar a minha volta para casa, na região central de São Paulo, local do encerramento do evento. Apanhei um ônibus executivo na rodoviária de Cotia e desembarquei, coisa de uma hora depois – e sob chuva – próxmo ao Hospital das Clínicas.

Para quem não conhece São Paulo, eu estava a pelo menos 45 minutos a pé da minha casa. Pensei na opção do ônibus, mas imaginei que a Rua da Consolação estaria bloqueada para o tráfego. Elaborei então a rota via metrô e lembrei que todo ano a Estação República do metrô, que seria meu destino, estaria fechada pois que localizada no coração das comemorações.

Donde, o plano inicial que eu traçara se impôs: eu iria para casa a pé.

Anderson Passos

Olhares que valem o dia

Dia desses eu subia a Rua da Consolação, como faço ao longo dos dias com minhas caminhadas, quando, ao me aproximar da praça que leva ao cemitério famoso da via, o farol fechou.

Ouvia som no meu Ipod e, olhando ao redor, vi que uma mãe com uma criança de colo, que devia ter um ano ou algo mais, passou da minha esquerda para a direita, postando-se ao meu lado.

Ato contínuo, o bebê, de brilhantes olhos azuis, me acenava com a mão direita efusivamente e exibia um lindo sorriso ainda sem dentes. A mãe ria também e acenei de volta. O farol abriu e lá fui eu apressar o passo. Em seguida eu estava na calçada do cemitério e os jacarandás despejavam flores numa cena que guardo em slow motion como símbolo de um momento feliz demais.

Anderson Passos

Não compre produto pirata

Vou narrar uma tragicomédia. Começa assim: subíamos eu e meu irmão a Rua Augusta, onde eu esperava encontrar camelôs que me vendessem filmes piratas do momento. Ok, vou confessar: eu queria ver o Batman e não deixar 40 mangos no cinema.

No meio da subida, senti um fincão. Suei frio, devo ter tremido e meu irmão, com ar de preocupação, perguntou:

– Algum problema?

– Tudo bem… – respondi

Ato contínuo, meu estômago disse algo como:

– Gloerguinhdgfdfvgddf

Chegamos ao camelot, achei o Batman e outros títulos e deixei R$ 20 com o trabalhador informal. O sol era de rachar. Nisso, eu e meu irmão nos separamos na Avenida Paulista e meu estômago e eu travávamos diálogos desconexos. Ele avisando que ia despejar toda a fossa. E eu pedindo “não, não, não”.

Chequei à esquina da Paulista com a Consolação e, tentando ser otimista, disse sussurrando:

– Em 20 minutos estou em casa e nada, nada vai acontecer.

Nem 20 minutos se foram e eu estava na metade do caminho, me contorcendo, cuidando para que ninguém estivesse vindo logo atrás de mim. Meu estômago gritava, napoleôneco a essas alturas.

– Gransashdsdaidadad.

Pensei comigo então:

– Que bom que estou de calça. Se eu me borrar perna abaixo ninguém verá nada. Mas não, eu não vou me borrar.

Mas, fato é que, para que eu me borrasse perna abaixo, bastaria um susto. E ele veio: eis que do nada, surgido como uma miragem maledeta, um mendigo veio me pedir fogo para seu cigarro de palha.

Eu, claro, só tinha gases, até então. Pois o mascote dele, vira lata de grande porte e cara de faminto, veio me cheirar. E, pensando que o canino me arrancaria uma perna, tentei apressar o passo.

A seguir meus músculos todos cederam, e suei, e perdi a respiração e flocos de mierda começaram a rondar minha calça como aqueles balões que as crianças punham dentro das calças para depois estourarem a agulhadas numa daquelas gincanas do Silvio Santos no Domingo no Parque.

O cachorro que me ameaçava, farejou o horror e correu de mim com olhos de quem diz:

– Catzo, esse tá fedendo mais do que o meu dono.

Chegando em casa, 40 minutos depois do primeiro fincão, só pude concluir:

– Não compre produto pirata. Deus castiga.

Anderson Passos

Cara de pau sem limites

Não escreverei uma linha pois que minha opinião está escarrada no título deste: reproduzirei apenas, para a reflexão dos eventuais leitores, nota da coluna Zapping do jornal Agora.

“A Igreja Renascer em Cristo está vendendo a R$ 1.000 pulseiras idênticas à de seu líder, o autointitulado apóstolo Estevam Hernandes, para custear a manutenção da antena da TV Gospel, localizada na rua Consolação, em São Paulo. O objetivo é arrecadar entre os fiéis cerca de R$ 2 milhões para a obra. Em seus cultos, Hernandes –que já foi preso nos EUA por evasão de divisas– diz que a verba será utilizada também para as obras de acabamento interno e da parte elétrica do prédio. A assessoria da Renascer afirma que anualmente a igreja realiza campanhas para a reforma de seus prédios e que as doações são voluntárias e não estão vinculadas a venda”.

Anderson Passos

A madre do Picumã

Outro dia eu fui ao Dr Abílio – nome pelo qual chamo a rede de supermercados Pão de Açúcar – da Consolação com Alameda Santos quando, já na ida para a fila do caixa, postei-me atrás de uma senhora. Fazia um calor graúdo e ela estava carregada de roupas de lã, pasmem.

Era o caixa mais vazio na loja e eu disse feliz entre os meus botões, olhando para as duas bandeijaças de comida japonesa que comprara:

– Bora correr e almoçar logo em casa.

A senhora à minha frente já estava por ir embora. O que atrapalhava é que ela mexia na bolsa velha a procura de uns trocados.

Então respirei fundo e percebi que daquela senhora vinha um mau cheiro abominável que não sei precisar em palavras. Daí o caixa vazio. O picumã que vinha da senhorinha parecia vindo de um vestiário masculino pós jogo de futebol.

Até que, finalmente, a senhhorinha pagou seu modestíssimo pedaço de galinha – creio que comprara duas patas – e eu passei minhas duas bandeijolas japas a 180 por hora para a atendente. Então a senhorinha me arguiu:

– Quanto está o quilo da carne?

Como faltava a parte de baixo da arcada da senhorinha, ela mais cuspia do que dizia algo. Presenteado pela ducha repentina, respondi um “não sei” sem olhar pra ela. Vai que ela me recriminasse e me cuspisse mais.

Não satisfeita, ela me perguntou, olhando para minhas bandeijas:

– Isso é de comer?

Afirmei que sim com um leve gesto de cabeça. O mau cheiro da senhorinha parecia se ganhar poderes sobrenaturais a cada sílaba que se dirigia a ela.

A caixa então informou um preço da carne de gado aleatoriamente para a senhorinha, que reclamou do alto custo. Até que finalmente ela saiu rumo à Avenida Paulista. Saí em seguida, mas com o cuidado de deixar a senhorinha e seu odor abominável ganhassem boa distância.

No entanto, São Paulo vez em quando parece pequeníssima apesar do seu gigantismo. Já encontrei a tiazinha em frente ao Cemitério da Consolação, em andanças aqui perto de casa e, claro, sempre que vou ao referido Dr Abílio, lá está ela a reclamar do alto preço da carne.

Anderson Passos