Protesto vazio

Quase que semanalmente vou à Assembleia Legislativa de São Paulo por conta do meu trabalho.

Desde o auge dos protestos de junho e julho deste ano, ficou mais difícil – e burocrático – ingressar na Casa já que manifestantes tentaram invadir o Parlamento na tentativa de pressionar pela instalação de uma CPI para apurar denúncias de formação de cartel no transporte sobre trilhos no estado.

Daí que agora você tem que se identificar para o soldado da PM que faz a guarda local, dizer o que vai fazer na Casa e para onde vai. Antes, não era preciso dar satisfação a ninguém.

Mas eu dizia de protestos e de gente acampada em frente ao Parlamento. Sim, eles continuam lá, mas a manifestação se tornou uma piada deprimente.

Quando por lá passei havia não mais do que cinco pessoas. Tinham gerador, notebook, e mais não vi em termos materiais. Chamava a atenção um sujeito sem camisa, visivelmente entorpecido, que berrava:

– Lutar, lutar, ação popular.

Esse mesmo sujeito, em dado momento, quase ateou fogo às barracas concentradas em frente à Assembleia e testemunhei um colega em tom de súplica a dizer:

– Levem esse cara daqui.

Bem, depois dessa tomei meu rumo e envergonhado pela forma que a incapacidade política ganhou naquele espaço.

Anderson Passos

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Você é homem

Na noite passada (9/9) eu assistia televisão quando mais uma briga ganhou vulto na rua, quatro andares abaixo.

Quando fui à janela, vi que num carro estacionado havia um furdunço daqueles. Olhando mais atentamente, vi que dois travestis tentavam entrar no carro, um deles puxando a bolsa de uma moça. Deveria ser 21h e alguma coisa àquela altura.

O bate boca, a puxação de bolsa, a gritaria, deve ter durado uns 15 minutos. E eu não fiquei esse tempo todo na janela porque simplesmente já não tenho paciência para essas coisas.

A seguir, disse com meus botões, exultante:

– À TV, cara pálida.

Não demorou muito e a gritaria começou novamente. Dessa vez, da sacada do prédio em frente, um cara ameaçava as travecas sugerindo que o sujeito não iria aparecer para trabalhar no dia seguinte.

Outro sujeito, este claramente homossexual e dono do apartamento de onde as vítimas berravam, chamava as travecas de forma, ao menos para este cronista, incomum.

– Você é homem, você é homem!!!

E foi um alvoroço aquele xingamento, porque as travesputas reagiram gritando ainda mais, com aquele voz típica de Vera Verão morrendo afogada por hormônios e silicone veterinário.

Durou mais meia hora a zona, sem que polícia alguma desse conta da bagunça.

Anderson Passos

De volta ao batente

Além de retomar devagarito os trabalhos deste blog, o escriba precisa superar mais um desafio: voltar às caminhadas. Deve ter quatro ou cinco meses em que me deixei levar pela preguiça, em que permiti que o trabalho invadisse também minhas manhãs e tudo o mais.

O resultado é que estou me sentindo gordacho claro que isso me deixa pra lá de chateado. Vejamos se vai dar pé. Ou vai continuar dando pança.

Anderson Passos

Ativando protetores de ouvido em 3,2,1… (Final)

Pasmem o que escreverei a seguir, mas a armadilha mais letal do meu sono traz a assinatura do poder municipal de São Paulo. Ela já vinha se engraçando a algum tempo, mas agora tornou-se cruel, fatal.

Ocorre que exatamente às 6h30min de todas as manhãs – portanto, também nos finais de semana – um caminhão pipa com água reaproveitada encosta nas imediações do meu prédio. Exatamente às 7h, o motorista, auxiliado por um funcionário na parte externa, inicia a lavagem da rua para minimizar o acúmulo de lixo, em especial restos de comida de estabelecimentos comerciais.

A operação, no entanto, redunda em sacrifício para os moradores dado que o barulho é muito mais irritante do que a broca de um dentista, por exemplo. Supera de longe a gritaria de travestis e clientes mal-amados ou em desamor.

Se tivesse um só pedido a fazer à prefeitura de São Paulo, eu faria um modestíssimo: tragam de volta a varrição e a eventual cantoria ou preguiça dos operários da limpeza.

Seria mais silencioso, seria um alívio, seria restituída uma leve paz aos atormentados moradores do meu pedaço.

Anderson Passos

Carnaval

Já fui simpático ao Carnaval. Mas a idade chega, a barriga cresce, os cabelos ficam brancos e o saco enche.

Normal verificar que mesmo semanas antes do feriado, blocos tomam as ruas da Pauliceia, em especial a Augusta. Fosse o fenômeno restrito aos finais de semana e tudo bem.

O diabo é quando, em plena segunda-feira, um bloco se reúne na Teodoro Baima, a pouquíssimos metros de onde moro com um som e uma música ensurdecedores. O Carnaval, salvo raríssimas exceções – e elas me fogem – faz dos ouvidos de alguém com certo discernimento um depósito de lixo.

O tal bloco, que não sei nominar, toca de Ilariê a outras porcarias do maledeto axé baiano. Se houve avanço, é apenas um: ou mudaram a vocalista ou ela finalmente aprendeu a cantar. Ano passado, a desafinação fazia meus olhos e ouvidos sangrarem. Hoje o coração me sangra. Todos os blocos deveriam ser obrigados a tocar apenas marchinhas. E num volume aceitável.

Anderson Passos

Nova série

Nuncva achei que depois de Lost, com seu final estranho e decepcionante, eu pudesse voltar a assistir uma série com tamanha abnegação. Mas caí em desgraça. E ela atende pelo nome de House.

Para quem desconhece, na trama, o sujeito do título é um médico que, por métodos pouco ortodoxos e má educação transbordante, elucidam casos que desafiam a medicina e a própria realidade. Entre seus assistentes está a estupenda Jennifer Morrison, que interpreta a doctor Cameron.

Comprei todos os maledetos DVDs depois de ver a prima temporada. E no momento em que teço essas linhas, começo a quarta temporada, com a equipe do médico totalmente desfalcada, pois que todos pediram o boné.

Em tempo, cumpre dizer que o culpado de tudo isso é o meu irmãozão Ferdinando, que me apresentou a série dizendo que o personagem, não física, mas no seu modo de agir por vezes truculento e verdadeiro demais se pareciam com este humilde blogueiro de poucos, mas selecionados leitores.

Anderson Passos

Cargo entregue

Passei a última semana na casa do meu irmão na minha função pouco favorita de babá de cachorro. Neste domingo, meu irmão finalmente desembarcou em São Paulo e lhe devolvi as chaves de casa ciente do dever cumprido.

As três mascotes dele almoçaram e jantaram às minhas custas, a traiçoeira e teimosa Chabby converteu-se em dócil figura – a ponto até de lamber-me a face – a Modesta encheu o saco um tanto mais com sua mania de pular e arranhar os visitantes enquanto a mascote mais velha, cujo nome me falha, fazia cara de tanto fez e tanto faz, calma que ela é.

Do sul, meu irmão trouxe notícias que eu já imaginava e uma camisa de presente, que eu não supunha. Passeamos juntos com as mascotes enquanto ele me contava as novidades, dentre as quais o fato absolutamente nojento de que meu pai, mesmo com lenço no bolso, insiste em assoar o nariz por onde anda, sem se importar com o local ou seus transeuntes. Consta que quase acertou um sapato de madame. Meu pai é um tigre.

Em troca de meus serviços, meu irmão promete uma bicicleta usada e reformada. Veremos.

Anderson Passos