Você está ou mora no Rio?

Se a resposta é sim, parabéns porque estará iante de uma oportunidade única: conhecer o acervo do maestro soberano Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Abaixo a matéria da Folha on Line com o serviço completo. E tomara que essa exposição venha correndo para São Paulo.

Exposição no Rio apresenta parte do acervo de Tom Jobim

LUCAS NOBILE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

No próximo dia 8 de dezembro completam-se 18 anos da morte de Tom Jobim (1927-1994). Além da obra do compositor, pianista e cantor –um dos precursores da bossa nova– continuar viva, alguns de seus objetos pessoais podem ser vistos pelo público na exposição “Tom Jobim – Música e Natureza”, no Rio.

Instalada no Instituto Antonio Carlos Jobim, no Jardim Botânico, a mostra reúne parte do acervo de Jobim, como sua discografia completa, fotos, partituras e manuscritos de composições feitas apenas por Tom ou em parcerias com Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Luiz Bonfá, entre outros.

A exposição, que teve curadoria de Elianne Jobim e de seu marido, Paulo Jobim (filho do pianista), também traz raridades, como o piano de armário Weimar –que ficava no apartamento do maestro na rua Nascimento Silva, 107, em Ipanema, endereço citado na letra de “Carta ao Tom 74”, de Vinicius e Toquinho.

No espaço de 190 m², o público também pode ver o violão Di Giorgio, carinhosamente chamado por Tom de “Sinatra”, instrumento usado por ela na gravações com Frank Sinatra nos anos 1960.

Além disso, os visitantes podem ver artigos pessoais de Jobim, como uma caixa de pios de pássaros, um chapéu, algumas das lupas da coleção do músico, prêmios conquistados em sua carreira e livros de autores prediletos do compositor, como Guimarães Rosa.

“A exposição foi organizada de forma cronológica, desde a infância dele. Tentamos fazer um panorama com painéis, projeções, as mesinhas que ficavam ao lado do piano dele na Nascimento Silva, entre outras coisas. Revirando o acervo, a gente sempre se depara com alguma coisa nova”, diz Elianne Jobim.

A mostra também aborda uma das paixões da vida de Tom: a natureza.

“Antes de muita gente falar do assunto ecologia, ele já falava há muito tempo”, conta Elianne.

Os organizadores também planejaram visitas guiadas, voltadas a apresentar ao público momentos que lembram as preocupações ambientais do compositor.

ACERVOS DE OUTROS ARTISTAS

Preocupado não apenas com a preservação e a divulgação da obra de Tom, o Instituto Antonio Carlos Jobim hospeda também em seu site (www.jobim.org ) acervos de outros nomes como Chico Buarque, Dorival Caymmi, Gilberto Gil e Lucio Costa.

Para o próximo ano, o instituto prepara o lançamento de mais dois acervos completos, com as obras de Milton Nascimento e Paulo Moura.

Além disso, Paulo Jobim também já iniciou conversas com Edu Lobo para o futuro lançamento do acervo e do cancioneiro em livro do compositor que, em 1981, fez o antológico álbum “Edu & Tom”, ao lado de Jobim.

“Sou muito fã do Edu e meu pai também era. Estou doido para fazer o cancioneiro dele. E tem a facilidade de o Edu já ter muita coisa escrita em partituras. Mas ainda estamos esperando aparecer algum patrocínio para viabilizar o projeto”, diz Paulo Jobim.

TOM JOBIM – MÚSICA E NATUREZA
QUANDO de terça a domingo, das 10h às 17h
ONDE Instituto Antonio Carlos Jobim (r. Jardim Botânico, 1.008; tel. 0/xx/21/2512-0303)
QUANTO grátis
CLASSIFICAÇÃO livre

Anderson Passos

Anúncios

Invaders (Final)

Creio que chegamos lá em casa em torno de meia noite num grupo de seis pessoas. A geladeira quase me deixa na mão, mas fiz bombar o termostato e depois da algum tempo a cerveja finalmente gelou.

Nisso, Marcel, o colega da bolsa sequestrada exercia das suas especialidades: alugava e alugava em revezamento.

À Maria Carolina, passei o comando do som. E ela vasculhou o meu acervo e, como em dado momento comentasse sobre Nelson Rodrigues, fui aos meus arquivos, alcancei biografia do genial cronista e autor, que ela levou consigo.

Ao seu Fernando, o chileno de ouro, exibi, às escondidas da Carol, clássicos na voz de Elis Regina, Benito Di Paula enquanto Marcel “da mala sequestrada” enchia o saco exigindo Adoniran Barbosa.

Mas a cada intervenção minha no som, ouvi a voz da Carol brincando:

– Essa daí não está programada.

Baixinha encantadora, escorpiana sagaz essa.

Mostrei A Moça do Sonho, de Edu e de Chico para a peça Cambaio para surpresos e encantados ouvintes. O mala questionava, assim mesmo:

– Mas e o Adoniran?

Eu queimava de volta.

– Morreu.

Risos e espanto. Mais tarde, prefácio em CD do Chico para biografia do Tom Jobim e o Maestro Soberano em criação ao piano. A gravação mostrava o nascimento de Anos Dourados.

De repente, o piso do meu banheiro se igualava ao de um banheiro movimentadíssimo de qualquer bar. A mesa, que inicialmente ocupava o centro da sala, migrou para a janela, onde nos penduramos em revezamento. O cigarro empestava e ainda empesta o ar. A conversa e a cumplicidade eram a tônica e o isotônico.

Ao final, finalmente Adoniran. O Mala do Marcel quis aumentar o som. Já passava das 7h de sábado, e eu empenhado em evitar multas por rasgar a lei do silêncio. Mas acho que esse risco foi debelado.

O que não cessa é a saudade e a vontade de tudo isso acontecer outra vez.

Anderson Passos

Doc do Tom

Fui assistir ao documentário do Nelson Pereira dos Santos e da Dora Jobim sobre o maestro soberano Tom Jobim.

A nota triste é que não mais do que vinte expectadores na sala. Até o começo da película, a fila onde eu me encontrava era somente minha.

Então o filme começou com Gal Costa entoando Se Todos Fossem Iguais a Você. Desabei na cadeira a chorar. Nessa altura, o setor do cinema onde estava já contava com mais uma senhora. Mas a sala escura nos torna multidão e chorei.

Chorei vendo Elis, vendo Nara, vendo Tom, os olhos azuis de Sinatra, Judy Garland numa surpreendente interpretação da clássica Insensatez. Saudei a gigante do jazz Ella Fizgerald e outros mestres.

Por fim, agradeci ao maestro por imprimir em sua música uma radiografia de um Rio de Janeiro que ficará apenas na lembrança. E nas suas notas mágicas.

Anderson Passos

Tom no cinema

Ainda não fui ver o filme do Nelson Pereira dos Santos e da Dora Jobim sobre o estelar Tom Jobim – o título é A Música Segundo Tom Jobim – mas não passa dessa semana, faça chuva, faça sol, caia o mundo.

Mas lendo algo sobre o filme na internet, nada me tocou mais do que a reflexão do Arnaldo Jabor sobre a película que revela em tons a vida do músico que hoje, ao lado de São Paulo, completaria 85 anos.

Eis abaixo o sambinha do grande cronista de O Estado de S.Paulo e cineasta.

A música segundo Tom Jobim

Arnaldo Jabor – O Estado de S.Paulo
Fui ver o ótimo filme do Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim e me lembrei da frase do Nelson Rodrigues: “Nada mais antigo que o passado recente”. Perfeito; dá para ver a espantosa mudança da vida social e cultural dos últimos 20 anos. As canções, as plateias, os olhos e ouvidos ligados nos shows, o desejo de transmitir a beleza de uma reflexão sobre nossas emoções, um ritmo de vida celebrando a inocência e a delicadeza, o tema do amor sempre presente, a qualidade das letras e sonoridade (Águas de Março é um grande poema sobre o devir), em suma, tudo que não é manipulação, barulheira fácil e boçal, nessa proliferação de irrelevâncias que pululam nas redes. Tudo bem, pode ser que estejamos no caos inicial, na infância de um novo e rico tempo cultural, como preveem os garimpeiros de ouro na bosta, mas, por enquanto, acho tudo um lixo.

O filme é a emocionante montagem de grandes momentos de nossa música como um discurso sem palavras. Saí do cinema como de um spa mental, no meio da poluição sonora e visual de São Paulo. Um filme terapêutico.

O documentário de Nelson e Dora me tocou muito. Sempre preferi ver fotos amareladas, filmes precários, antigos, que nos dão a sensação de nebulosas vidas mortas. As personagens do preto e branco, do trêmulo filme mudo, nos consolam com sua vetustez. Suas mortes são mais suportáveis porque pensamos: “Ah… naquele tempo se morria; hoje não”. No filme moderno, o passado recente, em cores, nos mobiliza porque vira um presente implacável, embora impalpável. Vemos a alegria de festas sem som, sorrisos mudos, a juventude perdida dos rostos, as gargalhadas que não ecoam em lugar nenhum, as mulheres tão moças e lindas (e não nos dávamos conta disso) e nós mesmos, nossa saúde, nossos humores, tudo visível. Também vemos os indícios de erros que nos levarão ao fim – o corpo maltratado, a melancolia evitável, o riso amarelo, eu, você, nós todos no passado perdendo tempo, desvalorizando o que tínhamos. Mais emocionante que a tristeza de um passado é sua alegria perdida.

Lembrei-me que num dia feliz, sentado ao piano, Tom tocou para mim uma música nova – era Chansong, a obra-prima com a letra anglo-francesa: “I’ve never been in Paris for the summer, I never drank a scotch with this bouquet”. Fui das primeiras pessoas a ouvir a música – tenho esse orgulho. Sempre que a ouço, vejo-me com ele, curvado, cantando com voz arfante, como se contasse um segredo.

Henri Bergson, o filósofo, declarou, quando viu os filmes de Lumière: “O cinema é importante para vermos como se moviam os antigos”. Isso.

Sempre me emociono com esse milagre do cinema, em que as pessoas ressuscitam na tela e ficam ali, falando, como se nada tivesse acontecido. Isso me dói porque um dia serei também protagonista de um flashback de mim mesmo. Assusto-me se estou num bar e, de repente, minha saudosa comadre Nara Leão começa a cantar baixinho ali ao meu lado, como aliás canta no filme, nos lembrando de sua imensa importância.

Já sentira isso na obra-prima do Miguel Faria Jr., Vinicius, quando escrevi: “O tempo era outro, e me refiro a tempo como ritmo, timing. Movíamo-nos de outro modo, em paisagens claras, com perspectiva, distâncias nítidas, andávamos pela praia até o Leblon”.

O mundo estava em foco e não era esse sumidouro de hoje. Esses filmes mostram um passado que poderia ser nosso presente. Ipanema era uma ilha de felicidade num país injusto, foi um momento raro em que o desejo e o projeto se encontraram, na praia, no bar, nas ruas com amendoeiras, nos amores mais livres, na música e literatura, antes da massificação.

O tempo se acelerou brutalmente nos últimos dez anos. Os filósofos vivem berrando: “Não temos mais tempo, porque as coisas fetichizaram o tempo!”

A cada dia, os blackberries, os iPads, os iPhones aumentam de potência, e o tempo vai se comprimindo. Até onde? Esta correria seria ótima se fôssemos chegar a alguma coisa, a uma estação Finlândia, a um terminal qualquer; mas, aonde chegaremos? No início do século 20, louvamos a velocidade crescente, revolucionária na arte moderna, a beleza do futuro, mas agora está chegando a hora de buscarmos a lentidão, a paz, o silêncio, como fazem as comunidades de “slow movement”. Aliás, o filme nos lembra que ainda havia silêncio. Outro dia, me falou uma “pianista” de twitters e facebook: “Hoje não há mais tédio – temos telinhas o tempo todo diante dos olhos”. Talvez, mas, sem vazio não há pensamento.

Agora, não temos condição de criticar e controlar mais nada, nem pela poesia, paródia, nem por nada. As coisas estão in charge, no comando da vida. Que diria Tom sobre isso? Bem, em conversas, nas suas falas sobre a natureza e em seus gestos já dava para ver a melancolia disfarçada de ceticismo sábio, víamos que ele já sabia que a barra ia pesar ali em Ipanema e em toda parte.

Talvez ele dissesse: “Você sabe, não é Jabor, você que é um árabe, um beduíno sem deserto, você sabe que a música existe no tempo. Se acelerar muito, a música vai junto, mas, depois de certo ponto, a arte perde o fôlego… Nós estamos querendo acabar com o Tempo”.

Isso me remete a um filme antigo, cult, o Planeta Proibido, de Fred Wilcox, com George Sanders e Anne Francis, um planeta vazio onde todas as informações de um mundo morto estavam guardadas num imenso subterrâneo, uma gigantesca máquina, um super-Google. Toda a vida do planeta, tudo que se descobriu e construiu estava ali, arquivado para a eternidade. Só não havia mais vida em volta – a raça tecnológica dos Krells tinha sido extinta.

Mas Tom não ia prestar atenção neste papo cabeça. Ele gostava de ver o que era vivo ainda. Ele diria: “Deixa pra lá… Olha… lá no alto, os urubus caçadores estão dormindo na perna do vento…”

Anderson Passos

Mesmo dia, mesma cidade

O dia 8 de dezembro e a cidade de Nova Iorque são emblemáticos para as pessoas mais atentas ao mundo musical.

Nessa data, em 1980, Mark Chapman matou John Lennon em frente ao edifício Dakota, onde o ex-Beatle morava com Yoko Ono. Foram quatro tiros. Para o assassino, era a chance de absorver um pouco da popularidade do músico. Pasmem.

Eu tinha então oito anos de idade e me lembro de estar no Parque Farroupilha (também chamado Parque da Redenção), em Porto Alegre, com o meu avô que, domingo sim outro domingo igualmente, me levava ao velho e saudoso Parque Tupi.

Ocorre que, nesse dia em especial, enquanto eu me divertia nos brinquedos, meu avô tomava umas cervejas.

E, findo o dia, antes de irmos para o ponto de ônibus que nos levaria para casa, meu avô precisou ir ao banheiro e fomos ao posto Touring, ali na avenida João Pessoa. Na televisão que ali havia ecoava a notícia do crime e, coisa marcante, a música Woman – cujo clipe o leitor acompanha abaixo – me sacudiu a cabeça por longos dias.

Corta para a mesma data em 1994. Num hospital em Nova Iorque o Brasil perdeu um de seus maiores expoentes musicais: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

Tom era um dos baluartes da Bossa Nova, ao lado do parceiro Vinícius de Moraes, com quem compôs o disco seminal do movimento: Canção do Amor Demais, na voz da divina Elizeth Cardoso.

Sem demora, as melodias engenhosamente agrupadas pelo Tom ganharam o mundo. Gravou com ninguém menos do que Frank Sinatra ao violão, posto que aos gringos seria estranho um tupiniquim tocar piano.

Mas Tom Jobim não era apenas um violinista. Era um maestro na maior e mais justa possível acepção do termo.

Eu falava da dupla Frank e Tom e impossível não encerrar esse post com esses dois músicos mágicos.

Do lado de lá – sim, eu acredito em vida depois daqui – deve estar havendo um concerto bárbaro.

Anderson Passos

Tonzinho

Dada a correria do cotidiano, passou o oito de dezembro e, lamentavelmente, não registrei a minha saudade do Tom Jobim.

Felizmente, ainda que estejamos num país sem memória – sentimento que atropela desavisados e ocupados como eu – o fundamental Globonews não deixou por menos e caprichou num especial ao maestro soberano.

Daí que, com imensa alegria, jogo aqui o link para o especial sobre o Tom veiculado no referido canal.

Para quem ainda não sabe o que perdeu, ainda dá tempo de conhecer melhor o Tonzinho e suas histórias brilhantes.

Anderson Passos

A leitura que salva

Ontem (3/12), como quase todos os dias, bateu o sinal das 20h no jornal e pedi licença para me mandar, prontamente atendida pela minha editora.

Cheguei ao ponto com folga e, diante do temporal que caiu na cidade, imaginei que o coletivo que me levaria para casa atrasaria. Até aí nenhuma novidade.

Ocorre que, ao avançar um pouco mais pelas avenidas Chucri Zaidan e pela Berrini, vi uma deprimente multiplicações de luzes. Não, não eram apenas as malditas luzes natalinas nas vitrines, mas a luz vermelha dos faróis dos carros indicando que a volta para casa seria um martírio.

O que me salvou foi a leitura da coletânea Playboy, As melhores Entrevistas. Devorando a obra, você se depara com entrevistas com nomes como Ayrton Senna, Nelson Piquet, Chico Buarque, o então famoso caçador de marajás Fernando Collor, Caetano Veloso, Henfil, Pelé, entre outros.

Eu avançava na leitura em altas passadas rumo ao final do livro e cheguei às entrevistas finais com o Tim Maia e o Tom Jobim. Nisso, o trânsito simplesmente não mexia e houve quem abandonasse o coletivo para seguir à pé. Como eu me via ainda longe de casa, não poderia fazer a mesma opção.

Lá pelas tantas, avanço pelas tigradas monumentais do Tim Maia confessadas ao Ruy Castro, quando a pergunta fatal sobre a iniciação sexual do gênio da soul music brasileira eclodiu. Tim não hesitou.

– Foi na Tijuca, com uma amiga nossa chamada Marisa Boca-de-Merda, porque ela tinha um mau hálito horroroso. Todos nós comemos – Eu, o Roberto, o Erasmo.

Entrei em surto quando li a revelação e me vi chorando de rir, pois gargalhar em meio aquele caos no trâsito era impossível.

Fui pisar em casa 22h30, duas horas e meia depois de tentar sair do trabalho. A leitura do livro me salvou de cometer um desatino.

Anderson Passos