Facebook (2)

Ainda no universo do Facebook apareceu uma foto de que eu jamais supunha ter participado.

A imagem, veiculada no perfil da Marina Zoppas de Albuquerque, (atenção, só pode ver a foto quem tiver cadastro no tal do Facebook) ilustra uma turma de grandes amigos e parceiros de festas dos tempos da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo (RS).

A turma da foto é grande e, claro, muita gente está ausente na imagem. Mas, certamente, permanecem no coração de quem viveu aqueles tempos. Grandes e bons tempos, aliás.

Anderson Passos

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Trote

Caminhava dia desses na região da Consolação quando flagrei uma reunião de jovens – com direito a interdição da rua – para a festa dos aprovados no vestibular do Mackenzie, uma das universidades mais importantes do País.

Vendo o pulular daquela massa frenética – altamente justificada – vi uma centena de garotos e garotas sujos de tinta. Mas, saindo do olho do furacão, vi um rapaz embriagado amparado por outro. Este tinha parte dos cabelos cerrados à máquina zero.

Ver aquilo me remeteu ao “trote” que recebi ao ingressar na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos – em São Leopoldo (RS), no segundo semestre de 1995.

Um veterano recebeu-me e olhando minha grade levou-me a uma sala que não era a minha, o que percebi somente na hora do intervalo. Foi apenas isso, uma quase inocência.

Ver os garotos banhados de tinta não me parece totalmente mau. Triste, e digno de estupor, é se ver os futuros bacharéis de hoje humilhados por veteranos. Mais deprimente ainda é saber que adiante, os que são humilhados hoje serão os patrocinadores dos abusos sobre os futuros calouros, aos olhos inoperantes das universidades.

Anderson Passos

Unisinos FM (7)

Aquele Dia das Mães foi cruel com o Homem Mau. Ocorre que não havia telefones funcionando na universidade, senão os nossos celulares. E a entrevista agendada com Juca Chaves não pôde ser veiculada. Pior, os ouvintes também não poderiam ligar. E interatividade em rádio é como o sangue nas veias. Vital.

Então tomamos uma decisão drástica: xingamos as mães do pessoal da empresa telefônica que nos tirara do contato com o mundo. Na hora, embalei no xingamento junto com a turma, depois freei o ímpeto. Mas já era bem tarde para voltarmos atrás naquele abuso.

O nosso argumento é que, semanas antes, já tínhamos mencionado com galhardia o termo “putas” no ar. Isso numa emissora que apesar de tocar blues, ser jornalística e estar no FM, era jesuíta de quatro costados.

Bem, eu dizia das putas e explico nosso argumento mais claramente: se mencionamos termo tão podre, que mal pode haver num desejo de câncer para a mãe do cara que tirou os telefones do ar?

No nosso caso, infelizmente ou não, todo o mal: dona Gládis, a mãe do mestre Paulo Torino, era nossa ouvinte número 1 – e não sabíamos disso, claro.

E claro que ela ficou escandalizada e, segundo o mestre, ela recomendou a ele de que aquilo estava passando de todos os limites.

Na segunda-feira seguinte àquele programa, Torino chegou à emissora vestindo o vermelho da Ferrari, no que vendo a cara do homem, ainda brinquei:

– Vermelho da Ferrari, mestre?

Ele não riu, não esboçou emoção nenhuma. Apenas me pediu o CD com o áudio do programa. Escutou, voltou à redação, tarjou com pincel atômico no disco o termo SUSPENSO e ali enterrou-se o Homem Mau.

Mas ele voltaria, tal como os mortos voltaram do lado de lá em Thriller, de Michael Jackson. A diferença é que o nosso defunto voltaria de fraque.

Anderson Passos

Unisinos FM (6)

Passei a produzir em paralelo as atrações culturais da Unisinos FM e o Programa do Terrível Homem Mau. O ano era 2002 e, como era ano de Copa do Mundo, ainda tentamos emplacar uma cobertura via tubo do evento esportivo. Paramos na ave de rapina Flávio Bernardi, o gêniozinho musical, apesar do empenho sem igual do mestre Torino.

Mesmo assim, a mesma equipe do Homem Mau conseguiu inserir programetes sobre o evento esportivo, cujo primeiro teve como convidado ninguém menos do que Juca Kfouri.

Mas estou tergiversando, diria a Dilma. Então falemos do Homem Mau. Ficamos no ar por quase um ano. Dos seus primórdios, algumas mudanças: o programa passou a ter roteiro e era transmitido ao vivo aos sábados, à tardinha, sempre estourando o tempo previsto de 30 minutos no ar. Isso de estourar o tempo foi uma rotina, aliás.

Por algumas edições, o Bad Man ganhou o valioso acréscimo de Alex Vitti e suas chamadas ao longo da programação, submetidas ao exigente crivo de Paulo Torino, eram aprovadas com vibração juvenil do mestre.

As vinhetas também tinham uma característica especial: a voz notável de Euclides Bitelo que, sem imitar ninguém que não a si próprio, trazia textos das mais diversas personalidades como Adilson Maguila Rodrigues e Mohamed Ata. O texto do último era algo como “se eu tivesse ouvido o Programa do Terrível Homem Mau, eu nunca teria aprendido a voar”. Em tempo, Ata é um dos pilotos de um dos vôos que atingiu as torres gêmeas do World Trade Center em 11 de Setembro.

Além dessas barbaridades, O Homem Mau colocou no ar gente de diversos calibres como Kakinho Big Dog, Enéas Carneiro e lançou um artista para o mundo de nome Carlos Miranda, cujos nossos comentários abalizados lhe valeram – provavelmente – a venda de uns dez CDzinhos.

Mas o programa sarcástico não duraria muito tempo numa rádio jesuíta. E o final veio num Dia das Mães.

Anderson Passos

Unisinos FM (5)

Estávamos às portas da Feira do Livro de Porto Alegre de 2001 e fui apresentado ao genial Alessandro Varela, que seria meu repórter naquela cobertura inaugural.

Programação extensa, alguns grandes escritores, obras essenciais, sessões de autógrafos e a nossa primeira missão era delegar quem e que eventos seriam nossa prioridade.

O clima começou tenso, mas os palavrões e o meu fingido mau humor aliado à sem igual inteligência do meu irmão Varela antecipava que aquele trabalho seria um sucesso.

E, passada a tentativa do programador Flávio Bernardi de derrubar as iniciativas dos estudantes em prol da música programada – e mal – por ele, nos saímos bem.

E, na Feira, ao fazer contato com o locutor e grande irmão Gabriel Izidoro, soube da existência de um projeto intitulado Programa do Terrível Homem Mau.

A primeira edição fora transmitida em meio àquela Feira do Livro e, diante do fato de que eu imitava algumas personalidades locais e de que já estava adaptado à produção radiofônica, logo fui chamado à me unie à equipe que tinha ainda Douglas Lunardi, Neemias Freitas e Euclides Bitelo. Foi, talvez – quem sabe – o primeiro e único programa de humor da emissora.

No próximo post lembrarei essa fase.

Anderson Passos

Unisinos FM (4)

– Eu vou precisar de um produtor cultural para cobrir a Feira do Livro e vou te chamar.

A fala é do professor de rádio e diretor da Unisinos FM 103,3, Paulo Torino para esse encagaçado sujeito em 2001. Algumas aulas mais se foram, e o homem só me lembrou de ficar escutando a emissora para me ambientar aos comunicadores e ao estilo da mesma.

Por muito tempo não disse mais nada e eu até pensei que ele tinha esquecido do assunto de me chamar para produzir a Feira do Livro de Porto Alegre daquele ano.

Mas, após outra aula, ele sacramentou:

– Vai na minha sala amanhã à tarde.

Eu, que trabalhava numa produtora de vídeos como roteirista recebendo trocados, dei adeus ao trabalho insalubre e voei para São Leopoldo.

Fui apresentado por Torino à equipe e tenho especial lembrança de falar com a locutora Márcia Ganzer, a quem eu ouvira nas tardes que antecederam a reunião que selaria minha vinda.

No dia seguinte cheguei cedo – costume que nunca perdi – e, de tão ansioso, fui almoçar com meus mestres Torino e Pati Weber sem conseguir tocar na comida. Tremia horrores.

Naquele dia produzi exatamente duas miseráveis notas. E todos me disseram, confiantes.

– Vai embalar, não te preocupa.

E embalou mesmo.

Anderson Passos

Unisinos FM (3)

Se bem me lembro a disciplina era Rádio 2 e eu fiquei frente a frente com Paulo Torino, que anos atrás me expulsara da rádio, na minha visão equivocada.

Primeira pergunta do mestre a mim e aos colegas.

– Se a Fernanda Montenegro entrasse por aquela porta, o que vocês perguntariam para ela?

Não vinha pergunta nenhuma a ninguém e o mestre, assim, nos ensinava a importância da pauta jornalística.

Então vieram os malditos testes de fala ao microfone e, aterrorizado, eu travava. Lembro de numa das aulas pirar numa transmissão simulada de futebol e imitar o Leonel Brizola, para espanto dos colegas e do mestre.

Hilário e perspicaz foi o comentário do saudoso operador Luiz Henrique Café Machado dizer que imitando eu não travava.

Tempos mais tarde, novo teste. Dessa vez simularíamos um programa. Nervoso, ignorei boa parte do texto que escrevera. Feito o trabalho, aos trancos e barrancos, o mestre me deu um incentivo que jamais esqueço:

– Se tu não ignorasses a ficha e lesses o texto ficaria excelente. Tu vais ser um bom repórter.

Mais tarde aconteceu algo que ainda me gela só de lembrar.

Anderson Passos