O gaúcho “civilizado”

Se um dia o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda cravou em Raízes do Brasil que o brasileiro é cordial, eu proponho começar a repensar a tese.

O final de semana que passou é uma evidência de que a gauchada – que em geral se acha acima do céu e da terra e, não raro, reconhece até a possibilidade de não se dizer brasileiro – parece, novamente, estar a frente do seu tempo.

Durante o Grenal sediado na suntuosa Arena do Grêmio, pode-se ver colorados comportando-se como bugios em guerra. A diferença é que os bugios – uma espécie de macaco – arremessam contra seus adversários os dejetos que produzem. Os colorados em questão, preferiram cagar nas cadeiras do estádio.

Não muito longe dali, na estação do Trensurb – o metrô mais legal do mundo, diz a gauchada – houve um tremendo quebra quebra com danos a estações pelas duas torcidas monumentais.

Resolvido: vou poupar Sérgio Buarque de Hollanda e manter a tese da cordialidade do brasileiro. Porque, afinal de contas, ela não serve aos gaúchos. E olha que eu nasci naquela bagaça.

Anderson Passos

Polícia em ação (2)

Quando cheguei em frente ao Teatro Municipal, onde haveria a concentração, passava apenas das 14h. Havia não mais do que uma dezena de estudantes e outros tipos na escadaria do teatro.

Às 14h15min, circundei o mesmo e percebi o movimento de skatistas fazendo manobras nas laterais do prédio. Quando passei na lateral que dá acesso ao passeio do Vale do Anhangabaú, vi cerca de vinte guardas municipais em marcha.

Quando retornei à parte frontal do teatro, vi os primeiros manifestantes estendendo faixas no passeio. Entrevistei uma delas, que me disse da causa e que uma maneira de evitar a leitura da imprensa de que se tratava apenas um ato de vandalismo, a orientação era que os manifestantes ficassem juntos.

Devia ser em torno de 15h quando policiais começaram a chegar. Uma verdadeira tropa passou pelo Viaduto do Chá em direção à prefeitura.

Dado o número pequeno manifestantes equivalente até ao de jornalistas, o colega Ricardo Galhardo, do portal iG, se aproximou e brincou:

– Tem mais jornalista que estudante.

Rimos em altos brados.

Índios ali próximos, devidamente caracterizados, tocavam em suas flautas o tema daquele filme estúpido Titanic e meus botões em coro disseram, num presságio fatal:

– A barca vai afundar.

Anderson Passos

Tiros, tiros

As balas estão chegando cada vez mais perto. Na última quinta-feira (6), tiros abateram dois homens bem na rua da redação onde trabalho. Só fomos conhecer o fato ao, via internet, sintonizar o Datena ou coisa assim e lá estavam os presuntos.

Não muito longe dali, ora na região central ora na região da Avenida Paulista, manifestantes se voltaram contra o valor de R$ 3,20 na passagem de ônibus e depredaram e pararam o trânsito. O resultado é que a Tropa de Choque da Polícia Militar foi a campo e o que se viu foram mais tiros e confusão.

Os contrários à alta da passagem prometem voltar às ruas hoje. Prometem trancar as ruas hoje, quando o sujeito que pega o buzão às 4h sonha em tornar a volta para casa menos dolorida. Lamentável.

Anderson Passos

A PM me ouviu

Escrevo animado pelo fato de que a Polícia Militar do Estado de São Paulo, um dos atores responsáveis pela segurança do evento – que evidentemente desconhece este blogueiro e mesmo esta ilha – sugeriu à prefeitura de São Paulo que a Virada Cultural sugere que os shows aconteçam entre 8h e 20h.

Tenho certeza que eu e muitos moradores da região central da cidade estão igualmente entusiasmados. Oremos para que a prefeitura da capital e os organizadores atendam à demanda.

Anderson Passos

Sem Virada

Neste final de semana que passou aconteceu a 9ª edição da Virada Cultural de São Paulo. Temeroso de que um palco fosse deslocado para a minha janela, atendi convite da onipresente Marina Diana e zarpei para Cotia para ter com ela, com o Ferdinando e o meu sobrinho Heitor um final de semana digno do nome.

Ao voltar para casa, lendo o noticiário, li que houve mortes, violência, furtos e tals. Poucas linhas positivas sobre as atrações como se a exceção pudesse suprir o todo. Mas enfim.

Fato é que tive sorte. Afinal, embora o mapa da Virada nada mencionasse, havia sim um palco na minha rua. E eu não dormiria um milésimo do que pude nesses dias.

Nem todos os que moram no centro tem a possibilidade que eu tive de sair e esquecer. O poder público precisa se lembrar de que no centro também há moradores. E que dois dias, com 12h de show durante o dia, pode ser uma alternativa mais razoável. Fazer a segurança de um evento desse porte durante o dia torna-se até mais facilitada. Que o prefeito Fernando Haddad, que assumiu em janeiro, atente a isso.

Anderson Passos

Polícia que mata

Para júbilo do vereador Telhada, a polícia paulista continua matando. Recentemente a TV mostrou a abordagem a três jovens por motoqueiros, que balearam dois deles pelas costas enquanto outro fugiu. Pouco depois, câmeras de segurança flagraram que uma viatura da Polícia Militar estava próxima ao local e pouco ou nada fez.

As vítimas eram negras, provavelmente moradores de rua. Provavelmente vítimas de certa elite paulistana que tem os olhos feridos ao olhar para as ruas e deparar-se com tamanha miséria, como se a omissão dessa mesma elite não fosse um componente dessa tragédia social.

Ainda que as autoridades anunciem investigações e sindicâncias, dificilmente veremos resultados práticos. Afinal, isso é Brasil.

Anderson Passos

Tiros na madrugada

É absolutamente normal a madrugada ser barulhenta na região central de São Paulo onde moro. É comum o sujeito acordar sob os gritos de bêbados, putas, travestis e etc. Aliás, tem um que incorpora um Exu em dois horários: 2h e 4h. Sempre desperto quando ele berra “ieeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeaaaaaaaaaaaaaaa”.

Volto aos sons noturnos. Mais comum ainda é ser despertado no meio da noite sob o funk abominável dos carros tunados.

O que não é comum é ser desperto por tiros. A última vez foi esse ano mesmo, quando a bala pegou aqui na Epitácio Pessoa. Ano passado, eu despertara ante um tiro solitário que matou um segurança da Love Story, evento amplamente noticiado, aliás.

Ainda agora, enquanto teço essas linhas (são 5h15 de domingo, 18/11), um sujeito passou pelas imediações da famosa Avenida Ipiranga e disparou seis vezes. Os tiros devem ter partido de uma arma automática por conta da sequência precisa.

Despertei de um salto, mas o meu vizinho de cima correu à janela, movimento que percebi em seus passos pesados e na abertura da mesma. Como, após 15 minutos do evento, as sirenes da polícia tomassem o ar, o meu vizinho fez o mesmo movimento N vezes, a cada nova sirene. E, claro, acendeu seus cigarros cuja fumaça cancerosa pude sentir cá nos meus modestos aposentos.

Em dado momento, achei que meu vizinho pularia a janela. Passado algum tempo do evento, antes de me ocupar com outra coisa – dormir já não era mais viável – fui eu visitar a janela e me certificar se meu vizinho desesperado ainda não saltara.

Felizmente não me deparei com nenhum corpo. Sequer flagrei as putas, travestis e toda sorte de seres bizarros que circundam o bairro a essa hora da manhã. Teriam os tiros um fundo didático? Ou a paranóia se instalou de vez entre os paulistanos? A saber…

Anderson Passos